Responsável por livros que criticavam o machismo, bisneta de Venerando acabou presa e torturada pelo governo Vargas 💪🏻
Na década de 1920, eram publicados dois livros que cairiam nas graças do movimento feminista e renderiam repúdio de parlamentares e expoentes do conservadorismo social: “Virgindade Anti-Hygienica: preconceitos e convenções hipócritas” e “Virgindade Inútil: novela de uma revoltada“. 📚 As obras vem de uma mesma autora: Ercília Nogueira Cobra, a feminista pioneira nascida em Mococa. 🌳Do lado materno, filha de dona Jesuína Ribeiro da Silva, neta de Raimundo Estelino Ribeiro da Silva e bisneta de um dos fundadores: Venerando Ribeiro da Silva. Do lado paterno, filha do promotor e deputado estadual Amador Brandão Nogueira Cobra, nascido em Baependi, da mesma família de onde possui raízes o escritor Oswald de Andrade. Do seu lado, uma poetiza: a irmã mais nova Noemia Cobra Leite, incontestavelmente mais sóbria nas palavras do que a irmã, à frente de seu tempo no pensamento acerca das mulheres, sua sexualidade e seus direitos (embora reproduza, em certos trechos de seus escritos, a mentalidade racista e homofóbica da época).
📕Escrito na flor de seus 33 anos, “Virgindade Anti-Hygienica” é um manifesto contra a opressão sexual das mulheres e contra a ausência de ensino profissionalizante para elas. É inspirado em testemunhos de prostitutas entrevistadas pela autora, abraçada por críticas à falta de educação formal para mulheres, ao casamento e às religiões 👰🏻. Higiene, aqui, é entendida como “asseio, tanto físico como moral”, contendo o título, portanto, crítica contumaz às restrições impostas ao exercício da sexualidade feminina. 💄 Ela chega a citar o médico Jean Marestau, que confessa que “São as moças virgens e as viúvas que fornecem o maior contingente de histéricos”.
Até hoje, que tem sido a mulher?
(Virgindade Anti-Hygienica, de Ercília Nogueira Cobra)
–Um dote, um engodo para os homens alcançarem altas posições quando são ricas; carne para os homens cevarem seus appetites bestiaes, quando pobres e bellas; solteironas votadas a todos os ridiculos, á ironia dos caricaturistas e dos humoristas faltos de assumpto, quando pobres e feias.
Mas a mulher é um ente humano! Tem direitos naturaes, soffre e não póde continuar a servir de tapete para os pés dos homens.
A obra foi logo taxada como pornográfica, alvo de pedidos de censura 🚫. A historiadora Maria Lúcia Mott acredita que veio da própria família a primeira solicitação de censura, que teria sentido vergonha pelo conteúdo.

“O meu livro foi escrito pela indignação que me suffoca quando passo por estes antros espalhados pelas cidades onde as infelizes do meu sexo servem de pasto a concupiscencia bestial do homem.
O meu livro foi escrito pelo horror que me causa ver as criancinhas engeitadas pelas pobres mães que não têm coragem de enfrentar a sociedade barbara que as querendo fazer santas, fal-as prostitutas.
O meu livro foi escrito pela revolta da minha alma diante do bárbaro assassinio das creancinhass esquartejadas na sombra pelas próprias mães que procuram fugir à uma deshonra que só existe nas ideias dos homens egoístas e ferozes.
Peço às criaturas inteligentes que não façam coro com idiotas que dizem que o livro é imoral.
“O indivíduo mais intelligente deixa-se dominar pelos preconceitos, sem se lembrar que elles, os preconceitos, foram invenção dos imbecis.”
O meu livro “Virgindade Anti-Hygienica” só seria imoral si não houvesse prostibulo no mundo.
Mulheres, despertae!
Tende piedade das vossas irmãs que se (<p.8) vendem para comer. Um olhar para elas! Si não é possível impedir a desgraça das que já cairam, educai as mulheres de amanhã.”
(Virgindade Anti-Hygienica, de Ercília Nogueira Cobra)

✝O catolicismo de sua região natal logo reagiria: o vigário de Casa Branca a expulsou da Igreja. O bispo de Ribeirão Preto proibe, enfim, que qualquer católico leia o livro “demoníaco”. Tornou-se a “Geni” da época: ao passar pela rua, as pessoas fechavam as janelas de suas casas. 🏚 Nem seu irmão a recebia mais. 🗯“moderna”, “revoltada”, “viciada”, “temperamental”, “de comportamento um tanto assustador”, “socialista avançada”… estes eram alguns dos adjetivos que a sociedade da época julgou convenientes à escritora.
“Todo mundo sabe onde está colocada a honra da mulher. Não é segredo para ninguém que a honra da mulher, o seu caráter, o seu idealismo, a sua consciência, todos os sentimentos, enfim, que a distinguem da vaca ou da cadela, foram colocados, por convenção do homem, justamente na parte do corpo que mais a aproxima desses animais. […] Seria absurdo! Seria ridículo se não fosse perverso. […] Por meio destes órgãos ela desfalece de Todo mundo sabe onde está colocada a honra da mulher. Não é segredo para ninguém que a honra da mulher, o seu caráter, o seu idealismo, a sua consciência, todos os sentimentos, enfim, que a distinguem da vaca ou da cadela, foram colocados, por convenção do homem, justamente na parte do corpo que mais a aproxima desses animais. […] Seria absurdo! Seria ridículo se não fosse perverso. […] Por meio destes órgãos ela desfalece de prazer, mas justamente porque são sede de sensações físicas, sobre eles não pode pesar lei nenhuma alheia à lei da natureza.
[…]
Sempre a praga dos preconceitos […] com as raízes na religião. Sempre o dogma. Sempre a religião aconselhando uma resignação que Deus, que era Deus, não teve, pois inventou o inferno para punir os seus inimigos. Mas como o dogma e a lei são invenções da cachola do homem, o dogma e a lei tratam de proteger o homem. A mulher que se dane. Todas as religiões escravizam a mulher. Todas! Maria é serva do Senhor. Deus aconselha aos homens que sejam monogâmicos, mas ele, poligâmico, e com medo da sífilis só aceita esposa virgem.
(Virgindade Anti-Hygienica, de Ercília Nogueira Cobra)
Virgindade Anti-Hygienica – Clique e leia na íntegra
Já o romance “Virgindade Inútil: novela de uma revoltada” conta a história de Cláudia. A linguagem provocativa traz reflexões sobre os pudores e sobre a maneira como o corpo feminino é disciplinado pela sociedade patriarcal. 👴🏻 As semelhanças com a vida pessoal da autora faz Maria Lúcia acreditar que trata-se, na verdade, de uma autobiografia. ✒
💰☕Nascida de uma das filhas do importante fazendeiro José Júlio de Araújo Macedo, Jesuína Ribeiro, nossa protagonista viveu com a avó em São Paulo por alguns anos. Em 1909, após a morte do pai, o promotor e Deputado Estadual pelo PRP Amador Brandão Nogueira Cobra, Ercília e sua irmã mais velha, Estella, voltariam para Mococa, para aqui viverem de maneira mais simples, sem os luxos a que estavam acostumadas lá no bairro dos Campos Elísios. A família viria à falência, fruto de má gestão do patrimônio. 💸
🎹Não queria voltar pra cá: queria ser pianista. Chamava as irmãs menores de “descalças, crédulas, caipiras”. A inquietação e o sonho de ser musicista falaram mais forte: aos 17 anos, ela e Estella voltariam para a capital paulista.
Pouco tempo depois, seriam capturadas pela família em Santos, e levadas ao Asilo do Bom Pastor, que tinha a “missão de proteger, educar e preparar para a vida menores difíceis”. Roubaram-lhe o nome: ali, passaria a ser Maria Madalena.
Foi no asilo que o sonho de ser pianista se converteu na paixão pela escrita. Em 1914, entrou, junto com estela, na Escola Normal Primária de Pirassununga.
“era muito alta, mais magra e mais briguenta que a irmã: parecia de fato uma revoltada”
(Aparecida Arantes Firmino, colega de classe de Ercília em Pirassununga)
👩🏻🎓Em 1917, na sua formatura, rasgou o próprio diploma, dizendo que merecia o primeiro lugar, dado à filha de um Coronel. Chamou a premiação de fraudulenta.
Os padrões de gênero a deixavam inconformada. Pregava que a educação superior seria o caminho certo para a emancipação feminina.

O primeiro registro histórico de sua atuação como escritora remonta de 1917, quando teria 26 anos. Ercília trabalhava para a revista Giesta, de teor anarquista. O período, porém, era dominado pela censura. Isso colaborou para que não fossem recuperados quaisquer artigos da jovem escritora. A ideia era que as mulheres escrevessem sobre o lar, sobre o comportamento adequado, nada que fugisse da etiqueta patriarcal da época.
Não é a mulher um ente apenas reprodutor? Uma espécie de autômato que só se move nos momentos em que a sociedade exige? Não é completamente insensível, mera portadora de um órgão que só pode funcionar quando a religião dá ordem e quando a sociedade autoriza? Para que instrução sólida? matemática, línguas, profissão liberal: bobagem! A mulher nasceu para ser escrava. Nada de encher a cabeça das meninas com coisa inútil as escravas.
(Virgindade Inútil, Ercília Nogueira Cobra)
O fim da vida foi bem longe daqui: Ercília passou a viver em Caxias do Sul, sob o codinome Suzana Germano. Foi ali que abriu um cabaré, chamado de “Pensão Royal”. Ali, “Suzy” se tornaria uma pessoa reservada e, por vezes, temperamental.
A tese que defendo é a seguinte: noventa por cento das mulheres que estão nos prostíbulos aí não caíram por vício, mas por necessidade. Se os pais dessas desgraçadas em vez de as obrigarem a guardar uma virgindade contrária às leis da natureza lhes tivessem dado uma profissão com a qual elas pudessem viver honestamente, elas ali não estariam
(Virgindade Anti-Hygienica, Ercília Nogueira Cobra)
A reclusão veio da perseguição por parte do governo getulista. Considerada “comunista” pelo regime, foi presa por quatro vezes. Há relatos de que sofreu tortura durante as prisões. Durante a prisão, tenta se suicidar. Por fim, some dos olhos da história ao fugir pela fronteira com o Paraguai.
[…] porque o interrogatório dela todo girava sobre sexo, ninguém interrogava a opinião política dela, ninguém queria saber, só queriam saber o que ela pensava sobre os homens, os homens estavam muito machucados com a opinião dela […] a visão que eles tinham é que ela era uma ameaça tremenda. Porque se ela levantasse as mulheres naquela época, eles tinham a impressão que iam derrubar o regime.”
(Maria Lúcia Mott)
Referências
COBRA, E.N. Virgindade Anti-Hygienica. s.L.p, Edição da Autora, 1924;


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