Fechada judicialmente em 2005, é atualmente a maior devedora da prefeitura, $11M. Existem também débitos com o governo federal, de quase $30M.
O natal de 2005 caiu em um domingo. Já no dia seguinte, a Clínica de Repouso Mococa S/A foi oficialmente fechada, por decisão judicial. A sentença encerrava uma história que começou em 1973, por iniciativa de uma família paulistana formada pelo médico Irany Ferreira, sua esposa, a professora universitária e advogada Wenceslanda Baptistella Ferreira e o filho do casal, Irany Baptistella Ferreira. Agora, restam as dívidas e o patrimônio que irá tentar dar conta de saudá-las.
O financiamento do INPS não foi suficiente para manter a saúde financeira: as contas de 1995, por exemplo, mostram que o funcionamento custava $3,5M. Nesse ano, fecharam com prejuízo de $508K, um aumento de 42% no rombo que já vinha de 1994.
Três anos depois da dissolução, foram executados 6 terrenos, sendo um deles leiloado e o restante penhorado. Dentre as terras estava a fazenda Nossa Senhora Aparecida, indo para Tambaú, além de terrenos na Vila Santa Rosa, Jardim Santa Maria e São Domingos. Mas ainda não fora o suficiente.
As tentativas de pagar os credores se arrastaram até o meio de 2018, quando o Dr. Sansão Ferreira Barreto, sem encontrar outros bens que pudessem ser penhorados, encerra o processo.
18 anos depois de ser dissolvida, os juros em cima das dívidas da clínica continuam rodando. O não pagamento de Imposto Sobre Serviços (ISS), que não chegava a $500K, foi vítima do tempo até virar $11.1M. Na lista de maiores devedores da Prefeitura, ela é a primeira, liderando com larga (des)vantagem: o segundo devedor tem débito de $2,6M. O terceiro lugar da lista, a propósito, pertence à Vita e Tripodore, empresa que administra nossa rodoviária: $2,4M. A relação de maiores devedores da Prefeitura de Mococa foi obtida através da Lei de Acesso à Informação.
Em âmbito federal, são $29,2M, dentre dívidas com a previdência, imposto de renda e FGTS. A clínica ainda responde processos trabalhistas de ex-funcionários.
Quais são os útimos responsáveis?
O último nome a aparecer na presidência da Clínica é o do ex-diretor financeiro da prefeitura de Mococa, Izaquiel Pafume. O nome pode soar conhecido: ele foi um dos envolvidos na chamada Operação Castelucci. Foi ele que autorizou a contratação de escritório de advocacia sem licitação, em esquema teria gerado dano de R$ 49.742.887 aos cofres públicos municipais. O processo está em fase de recurso, portanto todos ainda são oficialmente inocentes. Junto com ele, Nelson Plez Sobrinho está no quadro de sócios.

Houve maus-tratos ali dentro?
O pesquisador Nelson Tomelin Júnior, ao realizar uma entrevista com ex-acolhidos pela clínica de Mococa, esbarrou em relatos de espancamentos, como socos na boca do estômago. A versão é de que as agressões ocorriam quando os pacientes se negavam a tomar remédio, mas que haviam também agressões gratuitas.
Outra pesquisa localizou uma enfermeira que trabalhou no local em 1975. Ela relata insalubridade no local, incluindo equipamentos sujos, além de agressões físicas e verbais, isolamento em solitárias, eletrochoque arbitrário, dentre outros abusos.
“[…] trocava a agulha; mas que depois também só era lavada. Ai eu perguntei para eles assim: “Mas por que vocês não usam a estufa?”; “Ora, mas se sujar a estufa onde nós vamos assar pizza de noite?”
TERRITÓRIOS DISSIDENTES: ESPAÇOS DA LOUCURA NA CULTURA URBANA CONTEMPORÂNEA, Gabriel Barros Bordignon
Um claustro de mentiras
De convento a clínica e de novo a convento, o local era organizado por gravidade: os piores casos no térreo, os medianos no andar principal e os leves em cima. Na entrevista a Gabriel Bordignon, a enfermeira Ligia Trito conta que as boas condições que apareciam nos relatórios do antigo INPS, financiador do local, eram fruto de encenação: no dia de fiscalização, surgiam profissionais que jamais estiveram ali; móveis eram arrastados entre os andares enquanto os fiscais se deslocavam na vistoria; pacientes nadavam na piscina nesse dia, o que, em dias normais, era restrito aos médicos; A encenação funcionava: Lígia conta que o hospital recebia altas classificações do Instituto.
Esforço colaborativo
São poucos os documentos que contam a história da clínica de repouso de Mococa. Você conhece alguma história envolvendo o local? Abaixo tem um formulário para contar sua história e colaborar na construção do jornalismo na cidade.
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Veja as histórias que chegaram até a reportagem
Meu bisavô morreu enquanto estava internado la em 1981, ele tinha esquizofrenia paranoide e pelo que sei foi uma injeção sossega leão que o matou, mas no atestado de óbito dele consta “morte súbita por causa indeterminada”.
Me interesso pela psiquiatria e pela psicologia e tenho curiosidade em saber melhor sobre a história dele e das coisas que aconteceram naquele lugar.

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