Por uma mídia que gentifique o nordeste

Foto: Commons

O maior exemplo da xenofobia contra o nordeste, que acaba de ganhar as manchetes por conta da decisiva participação desta região na vantagem em primeiro turno de Lula, vem das próprias máquinas que fazem essas manchetes.

O nordeste foi devastado em prol de um projeto de capitalização do sul, desde a invasão portuguesa. Porta arrombada pelas caravelas, viu suas riquezas e seus povos devastados, no que muitos consideram o maior atentado aos direitos humanos da história de nossa espécie.

Ao explicar Lula no nordeste, as grandes mídias do eixo Rio-São Paulo aderem à negação do nordestino enquanto gente.

“Votam em Lula pelo bolsa família”, dizem. É como se fossem seres animalizados, famintos e, acima de tudo, sem cérebro. É como se fosse impossível ao nordestino ter ideologia, sendo vítima do próprio estômago. É como se não pensasse, apenas reagisse. Ao sul e sudeste, ao contrário, é creditado o pensamento, a análise cuidadosa, o espectro em si. Nada é tão cruel quanto o preconceito covarde disfarçado de análise objetiva.

Os ataques bolsonaristas ao nordestes são o nascituro gestado por uma mídia que, dia após dia, nega-se a gentificar o nordestino, e hierarquiza o Brasil, sempre à serviço do sudeste imperial.

É a continuidade da colonização, da engenharia da devastação, da ideologia do “índio sem alma” de padre Manuel da Nóbrega, do sumiço de civilizações inteiras em prol do enriquecimento de uns em detrimento de outros.

Vítima da ganância, fato é que sim, o nordeste sempre foi um caso à parte. Símbolo de resistência em marcos como canudos e o cangaço, pertence a esse povo a marca da batalha cultural para preservar sua identidade e suas riquezas, sejam materiais, sejam imateriais.

O atual governador e futuro ex-governador, Rodrigo Garcia, fez questão de opinar, em sua declaração de apoio a Jair, que São Paulo é hoje potência econômica porque nunca foi governada pelo Partido dos Trabalhadores. Ignorância ou estratégia? Rodrigo certamente não versa bem em história ou sociologia. Não é por esse ou aquele partido que as desigualdades existem. As raízes são históricas.

Quem já leu, certamente notou em mim muito do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda. Este brilhante pensador soube, como ninguém, compreender as diferenças entre o projeto habitacional dos espanhóis e o projeto depredador dos portugueses, quando enfim chegaram para “fazer américa”

Não estamos diante de um problema recente, mas de um problema cultivado. Há urgência para que a grande mídia rompa com a hegemonia de sotaques, de cores, de formas de ser e agir. É normal que o dialeto dado por padrão nos noticiários seja ou paulistano ou carioca?

Enquanto o nordeste for “povo alienígena” na TV e na internet, sempre haverá o espanto e o ódio por uma escolha que, por mais passível de crítica que seja, é legítima, pois legitimada pela cidadania brasileira que, para o espanto dos mais hegemonistas, ali existe.

Beiramos o ápice do ódio, com elites e mais elites do centro-sul ensaiando um projeto de “raça ariana” baseado na exclusão do povo que talvez seja o mais brasieliro dos povos.

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