Léo Dias vira case de ética jornalística

Colunista do Metrópoles se junta ao caso da Escola Base na lista de desvios de conduta de alta repercussão

Leo Dias e Antonia Fontenelle divulgaram caso íntimo e doloroso de Klara Castanho
Leo Dias e Antonia Fontenelle, os responsáveis por violar a intimidade de Klara Castanho e fazê-la reviver seu trauma / Foto: Fórum (Reprodução)

Depois de um compromisso cansativo, quis olhar qual assunto a ágora internética estava debatendo. Percebo logo que o Twitter está inundado por três nomes: Klara Castanho, Antonia Fontenelle e Leo Dias.

Klarinha é uma atriz de 21 anos que começou cedo, na jovem guarda formada por nomes como Maísa, Larissa Manoela e Mel Maia. Antonia Fontenelle também é atriz, mas acabou por se posicionar como bolsonarista e hoje é pré-candidata a deputada federal pelo Republicanos do Rio de Janeiro. Já Léo Dias coleciona polêmicas por sua postura invasiva para com as estrelas. O jornalista vivia um bom momento na carreira, com a publicação da história do influenciador conhecido como “Luva de Pedreiro”, até tomar a decisão que certamente marcará sua trajetória.

O colunista do Metrópoles publicou a história do estupro, gravidez e adoção do filho gerado por Klara Castanho após Antonia Fontenelle, sem citar nomes, classificar erroneamente o caso como abandono de incapaz. A bolsonarista também foi alvo de críticas duras por sua atitude.

“Parir uma criança e não querer ver e mandar desovar para o acaso é crime, sim, só acha bonitinho essa história de adoção quem nunca foi em um abrigo, ademais quando se trata de uma criança negra. O nome disso é abandono de incapaz”

(Antonia Fontenelle)

O gatilho para todo esse assunto, como se deve imaginar, foi o caso da menina de 11 anos estuprada e induzida pela juíza Joana Ribeiro Zimmer a não realizar o aborto legal. Diferente das declarações de Antonia, Léo optou por divulgar uma série de dados como sexo, hora de nascimento e hospital, dentre outros que podem tornar possível a identificação. Pra piorar, as informações teriam sido repassadas por uma enfermeira da Rede D’Or, onde o parto ocorreu.

Tudo isso fez com que Klara desvelasse de uma vez por todas sua dor em uma carta aberta:

Lilian Tahan, editora do Metrópoles, tentou convencer de que estava “fora do ar” quando a publicação ocorreu, mas internautas resgataram tweet feito pela jornalista logo após a matéria aparecer no portal que comanda. Era uma resposta à jornalista Juliana Dal Piva, uma das primeiras a expor sua indignação.

Inconsistente: Lilian tenta se afastar da polêmica dizendo que estava "fora do ar", mas internautas encontram tweet que a contradiz
Inconsistente: Lilian tenta se afastar da polêmica dizendo que estava “fora do ar”, mas internautas encontram tweet que a contradiz / Foto: Reprodução

A letra da lei

O código de ética dos jornalistas brasileiros estabelece que é dever do jornalista “respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão” “defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias
individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”.

Também o Estatuto da Criança e do Adolescente reforça que “o direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.” Já a enfermeira pode ser autuada por ” Submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento” (Art. 232 do ECA)

O caso da escola base é estudado em todos os cursos de jornalismo. Confiando cegamente na versão de um delegado de polícia, diversos veículos fizeram de um casal dono de escola infantil abusadores de crianças no imaginário social. Só depois foi percebido que de fato não haviam provas que associassem a escola ou seus funcionários a qualquer prática de abuso sexual de crianças.

O exemplo da escola base passa pela invasão de privacidade, mas é muito mais sobre a confiança desmedida em fonte única, sem avaliação crítica. Agora, em pleno 2022, surge um case que é a pura essência da reflexão sobre a dicotomia intimidade/interesse público. Klara disse e demonstrou que gostaria de esquecer o ocorrido, e que a matéria de Léo ferira seu desejo de não reviver os traumas sofridos.

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