Análise: Lula sedimenta discurso de soberania nacional com pronunciamento em TV e rádio

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Foto: Governo Federal

O contexto é contraditoriamente vantajoso a Lula. O presidente há muito sofria na mão das pesquisas de aprovação, enquanto escândalo do INSS, crise do IOF e outras mazelas refletiam na percepção do povo em relação ao governo.  Em meio a tudo isso, Donald Trump envia uma carta. Nela, impõe tarifa de 50% ao Brasil, com uma condição clara e inviável em nosso arcabouço legal para que a decisão seja revertida: anular a ação penal contra Jair Bolsonaro.

Lula apostou em subir o tom. O discurso de soberania nacional refletiu positivamente na pesquisa de aprovação ulterior. Para além disso, Trump decidiu mexer no equivalente econômico ao vira-lata caramelo: o pix. Com isso, estava concluído o presente do presidente americano ao presidente brasileiro. E Lula, desde então, tem nadado de braçadas no discurso de soberania nacional, o qual, ao menos pelo que indicam as pesquisas, tem surtido efeito vantajoso dentre o eleitorado.

O pronunciamento em rede nacional vem bater o carimbo na nova estratégia, alavancando a tônica que o presidente deve seguir pelas próximas semanas ou meses.

Lula opta por usar “presidente norte-americano”, sem citar nominalmente Trump. Em relação à oposição, a referência é ainda mais distante, mas não menos ácida. O presidente entra (ou tenta entrar) no universo da direita, chamando opositores de “traidores da pátria”. A não citação de nomes, é claro, se deve a certa etiqueta: citar nomes de adversários em um pronunciamento oficial não é de bom tom.

Lula já inicia com uma carteirada que o servirá de base para os minutos seguintes: as mais de 10 reuniões com o governo dos EUA. Se há agressividade nas falas, dentro desse fio lógico, não é por mera virulência.

E a tal agressividade vem segundos depois: os jornais escolheram a expressão “chantagem inaceitável” para documentar o vídeo do presidente. Mas o foco de Lula não era apenas, é claro, a imprensa: o presidente conclama a comunidade jurídica ao citar quatro princípios jurídicos fundamentais no estado democrático de direito: presunção de inocência, devido processo legal, contraditório e ampla defesa.

Mas não dá pra falar em princípios tão caros a uma elite intelectual sem conectar o cidadão comum a eles. O discurso, afinal, busca aumentar a popularidade nas próximas pesquisas. Assim, Lula relaciona os princípios teóricos à vida prática:

“Só uma pátria soberana é capaz de gerar empregos, combater as desigualdades, garantir saúde e educação, promover o desenvolvimento sustentável e criar as oportunidades que as pessoas precisam para crescer na vida.”

A tendência da oposição tem sido de separar as críticas aos julgamentos sobre golpe de estado da regulação das redes sociais. Aqui, Lula traz para a mesa o assunto, aproveitando o espaço para investir em um tema que lhe é caro. E de novo, para que não pareça mera birra ou simples pretensão teórica, usa um termo incomum para pessoas de sua geração: bullying. Além desse, também é citado o movimento antivacinas, outra justificativa, nesse sentido, para a regulação das redes.

A ideia, agora, é apostar no “estamos no mesmo barco”. Para isso, fala na luta contra a tarifa como “uma grande ação conjunta que envolve a indústria, o comércio, o setor de serviço, o setor agrícola e os trabalhadores”, todos unidos, é claro, em torno do presidente da república. Tal união é decisiva para que, em 2026, as alianças políticas levem Luiz Inácio novamente ao planalto.

“A primeira vítima de um mundo sem regras é a verdade”. A frase de efeito une a tentativa de arrebanhar defensores da liberdade de expressão regulada à guerra de narrativas em torno da balança comercial entre Brasil e EUA.  A tentativa é desenhar um tabuleiro muito claro: Trump e “traidores” contra o resto do mundo.

Agora, é claro, o pronunciamento será tratado como heróico pela esquerda e desastroso pela direita. O objetivo de Lula foi alcançado? Difícil prever de momento. É certo que, a partir de agora, o presidente se sente mais a vontade para seguir com seu plano de utilizar o discurso de soberania nacional como alavanca de popularidade. 2026 está chegando, e a resposta do governo à tarifa certamente impactará nas urnas.

Íntegra do pronunciamento de Lula

INTRODUÇÃO

“Minhas amigas e meus amigos, fomos surpreendidos na última semana por uma carta do presidente norte-americano anunciando a taxação dos produtos brasileiros em 50% a partir de 1º de agosto. O Brasil sempre esteve aberto ao diálogo. Fizemos mais de 10 reuniões com o governo dos Estados Unidos e encaminhamos em 16 de maio uma proposta de negociação.

“Esperávamos uma resposta e o que veio foi uma chantagem inaceitável em forma de ameaça às instituições brasileiras e com informações falsas sobre o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos. Contamos com um poder judiciário independente. No Brasil, respeitamos o devido processo legal, o princípio da presunção da inocência, do contraditório e da ampla defesa.

“Tentar interferir na Justiça brasileira é um grave atentado à soberania nacional. Só uma pátria soberana é capaz de gerar empregos, combater as desigualdades, garantir saúde e educação, promover o desenvolvimento sustentável e criar as oportunidades que as pessoas precisam para crescer na vida. Minha indignação é ainda maior por saber que esse ataque ao Brasil tem apoio de alguns políticos brasileiros.

“São verdadeiros traidores da pátria. Apostam no quanto pior, melhor. Não se importam com a economia do país e os danos causados ao nosso povo.”

PLATAFORMAS DIGITAIS

“Minhas amigas e meus amigos, a defesa da nossa soberania também se aplica à atuação das plataformas digitais estrangeiras no Brasil. Para operar o nosso país, todas as empresas nacionais e estrangeiras são obrigadas a cumprir as regras. No Brasil, ninguém, ninguém está acima da lei.”

“É preciso proteger as famílias brasileiras de indivíduos e organizações que se utilizam das redes digitais para promover golpes e fraudes, cometer crime de racismo, incentivar a violência contra as mulheres e atacar a democracia, além de alimentar o ódio, violência e bullying entre crianças e adolescentes e, em alguns casos, levando à morte, e desacreditar as vacinas, trazendo de volta doenças há muito tempo erradicadas.

DIÁLOGO

“Minhas amigas e meus amigos, estamos nos reunindo com representantes dos setores

produtivos, sociedade civil e sindicatos. Esta é uma grande ação conjunta que envolve a indústria, o comércio, o setor de serviço, o setor agrícola e os trabalhadores.

“Estamos juntos na defesa do Brasil e faremos isso de cabeça erguida, seguindo o exemplo de cada brasileiro e cada brasileira que acorda cedo e vai à luta para trabalhar, cuidar da família e ajudar o Brasil a crescer. Seguiremos apostando nas boas relações diplomáticas e comerciais, não apenas com os Estados Unidos, mas com todos os países do mundo.”

SUPERÁVIT

“Minhas amigas e meus amigos, a 1ª vítima de um mundo sem regras é a verdade. São falsas as alegações sobre práticas comerciais desleais brasileiras. Os Estados Unidos acumulam há mais de 15 anos o robusto superavit comercial de 410 bilhões de dólares. O Brasil hoje é referência mundial na defesa do meio ambiente.”

PIX

“Em 2 anos, já reduzimos pela metade o desmatamento da Amazônia e estamos trabalhando para zerar o desmatamento até 2030. Além disso, o Pix é do Brasil . Não aceitaremos ataque ao Pix, que é um patrimônio do nosso povo.”

“Temos um dos sistemas de pagamento mais avançados do mundo e vamos protegê-lo. Minhas amigas e meus amigos, quando tomamos posse na Presidência da República, em 2023, encontramos o Brasil isolado do mundo. Nosso governo, em apenas 2 anos e meio, abriu 379 novos mercados para os produtos brasileiros do exterior.”

MULTILATERALISMO

“Estamos construindo parcerias comerciais com a União Europeia, a Ásia, a África e nossos vizinhos da América Latina e do Caribe. Se necessário, usaremos todos os instrumentos legais para defender a nossa economia, desde recursos à Organização Mundial do Comércio até a Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional.”

CONCLUSÃO

“Minhas amigas e meus amigos, não há vencedores em guerras tarifárias. Somos um país de paz, sem inimigos. Acreditamos no multilateralismo e na cooperação entre as nações. Mas que ninguém se esqueça, o Brasil tem um único dono, o povo brasileiro

“Muito obrigado.”


 

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