O jornalismo digital na era dos estados etéreos

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Nunca foi tão necessária uma nova Vestfália. Em crise, os estados observam a porosidade surgir em suas antes sólidas fronteiras. O adstringente vem do céu. Ou melhor, vem das nuvens. As big techs pretendem-se, desde seus primórdios, reclamar o status de estados etéreos, pairando pelas nuvens, sem dar explicação ou satisfação a nenhuma das nações que fazem de carne, ossos e semicondutores seu funcionamento.

Em meio à crise, a imprensa já faz sua morada no éter das redes. O jornalismo digital cria a contradição basilar no dever ético da imprensa. Muitos veículos já abandonam o papel que rodeia a nação física, e investem em conteúdo 100% online. E aí? de que lado ficar da guerra que cada vez mais se aquece? Aliás, é preciso escolher um lado?

É dever ético do jornalista valorizar a cultura e a soberania da nação em que está inserido. Junto com a língua, a soberania nacional faz sólido o ambiente que o jornalista em breve, por dever de ofício, irá balançar. Chacoalhar a República pressupõe a existência da República. Mas agora, a república da internet é o ganha pão de quem informa. A língua ainda é nacional, mas a linguagem já deixou de ser a tempos. O ganha pão do jornalista é o algoritmo, que atrai e monetiza. Quanto mais tempo, mais anúncios, mais dinheiro.

E por falar em mais tempo de tela, que fazer com o bom e velho lide? Mais ainda, como conciliar a buscar por views com a busca por incentivar a cidadania, através de notícias que fazem pensar sobre os poderes e a representatividade do povo? Se o mais importante vem no título, de que adianta clicar no link? Mas se abandonarmos tal prática, estaremos rifando parte de nosso compromisso com a informação?

E quando o assunto envolve liberdade de expressão e imprensa? É certo que tal conceito tem interpretações diferentes em jurisdições diferentes. Mas e quando o ambiente em que se exerce tal liberdade resiste em entender tal diversidade? O jornalista, como qualquer ser humano, tende a aderir à interpretação mais vantajosa a si. Geralmente, é a das redes, que vê na quantidade (e jamais na qualidade) sua galinha dos ovos de ouro. Seja crime, seja preconceito, seja opinião crítica, seja análise aprofundada, o que importa para os donos do algoritmo é o volume de minutos e caracteres, por onde enxertarão os anúncios.

Éter e éthos precisam se sentar à mesa para negociar. Jornalistas precisam problematizar e refletir sobre a contradição basilar entre o físico e o digital, buscando formas de negociar sua atuação. Nunca foi tão necessário o famoso pé no chão, o gastar sola de sapato. Sem o presencial, o online torna-se redundante. Dia e noite na internet, viveríamos em um mundo isolado, alienados da realidade concreta que torna o noticiar tão relevante para a população.

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