“E o véu do santuário se rasgou em duas partes, de alto a baixo”. Este trecho bíblico me veio imediatamente após a discussão entre Trump/Vance e Zelensky.
Eu estava esboçando um espelho quando, pela CBN, ouvi a programação ser interrompida para um link direto com a Globo News. Os apresentadores se apressaram em mostrar o motivo do breaking news: “deu merda” (claro que jamais nesses termos). Logo que entendi a dimensão do que acontecia, liguei na CNN Brasil e recuperei o momento. Infelizmente a tradução da emissora me confunde mais do que esclarece, mas não havia necessidade, naquele momento, de entender as palavras, já que o tom de voz, dedos em riste, vozes exaltadas e interrupções entregavam tudo. E aliás, preparem-se: aqui, não repetirei uma só palavra do imbróglio. Nossa imersão será pelas beiradas.
O governo estadunidense toma todo o cuidado para libertar o salão oval do tom ameaçador que a política externa do país proporciona. Cadeiras em um marfim singelo, móveis delicados, uma mesinha que cheira a café… uma verdadeira casa de vó em meio ao prédio que centraliza o domínio do norte global. Um local de bocejos até para o jornalista mais disciplinado: nada sai do protocolo, as frases são repetitivas e clichês, bajulações e generalidades do início ao fim. Mas não naquele dia.
Boquiabertos, Tainá Falcão e Gustavo Uribe traziam no rosto a expressão de muitos que acompanham o noticiário internacional. “O que foi isso?”, ainda nos perguntávamos. É certo que o tom polêmico é uma marca da extrema-direita a nível global, mas aquilo… aquilo era inesperado até para os mais ousados analistas. Dois chefes de estado, em um encontro supostamente diplomático, batendo boca… a apreensão toma conta logo que a primeira voz levanta de tom: quando o ambiente tranquilo da conversa diplomática ganha cores lúgubres, nos parece possível já enxergar mortos e feridos. Terceira guerra mundial? sei que prometi não repetir o diálogo, mas temos aqui um termo cabalístico na boca do chamado “líder do mundo livre”. Independente de para qual lado caminhe, tirar tal termo do bolso é um sinal de alerta.
Trump tira os Estados Unidos do imperialismo envergonhado e o direciona ao imperialismo orgulhoso. A ideia central da Casa Branca deixa de ser um sonso “parem de besteira, somos todos iguais”, para um “é claro que somos superiores, e pretendemos continuar assim”. De olho na invasão da Ucrânia pela Rússia, anti-putin e com um controle severo sob Trump, o mainstream separa, agora, o novo presidente do liberalismo econômico que esperava que Trump, ainda que no caminho errante do conservadorismo social, projetava. A quebra da calmaria no salão oval representa o fim de uma observação otimista do discurso dominante sob a “new america”.
O que será de Zelensky sem Trump? difícil dizer. O que será da Ucrânia sem os EUA? muito pouco ou quase nada. O leste europeu não é um lugar para se estar sozinho, tampouco ambiente para jogar o jogo de colocar todos os ovos em uma só cesta. A soberania do território ucraniano não some apenas pelas mãos das tropas de Putin, mas se estende pelas escolhas atrapalhadas de seu chefe de estado. Zelensky não soube diferenciar estado e governo, e agora sofre as consequências de seu erro. Não há saldo positivo aqui senão para Putin. O líder russo, bem disse Américo Martins, da CNN Brasil, possivelmente deu risadas com a cena que rodou o planeta.

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