
O som é uma onda que se espalha no ar como uma reação em cadeia, chacoalhando os nossos tímpanos. Produzir som intencionalmente é algo comum aos animais, seja batendo em troncos, amassando folhas ou utilizando de seu órgão emissor de som, as pregas vocais. Além delas, o ser humano ganha um brinde evolutivo: o córtex pré-frontal, órgão que possui a relevante função de “inventar moda”, criando símbolos e representações diversas aqui e acolá, alguns dos quais sem conexão alguma com a realidade. Da capacidade de inventar modas cada vez mais complexas, surge a articulação do som vocal: a fala.
É claro que muitos animais possuem sistemas de comunicação interessantes, mas nada se compara ao nosso. Graças ao nosso cérebro inventor de moda, conseguimos expressar tanto uma árvore quanto um brocárdio jurídico. A abstração é nosso apanágio, um culto aos deuses que nós mesmos inventamos.
Na fala, as ideias caminham pelo ar e atingem o tímpano alheio. Ambos os cérebros compartilham de um sistema de códigos capaz de transformar as ondas sonoras em ideias inteligíveis apenas àquela espécie. A espécie humana é a maçonaria da biosfera: uma instituição poderosa, cuja comunicação só é entendida internamente. Do lado de fora, os animais não têm senão pistas do que queremos dizer.
A esta altura do campeonato, duas são as nossas principais ferramentas: a fala e a memória. Pela fala, jogamos nossas ideias no ar. Pela memória, como num exercício de pegar areia nas mãos, interpretamos e absorvemos uma versão própria daquele conjunto de ventos que tocaram nossos tímpanos. Assim se faz a comunicação oral, um exercício de movimento, dialética em seu modo mais puro. Nada fica como estava, tudo é reinterpretado tão logo atinja novas mentes, e o original perde-se tão logo sai das pregas vocais.
Primeiro passo: a escrita

A história não é muito fã da oralidade, tanto que a renegou por séculos, chamando de “pré-história” tudo aquilo que só foi produzido na efemeridade do ar em movimento. Só é história, nesse diapasão, o que passou pelo filtro da primeira grande revolução epistemológica da humanidade: a escrita. Agora, congelamos nossos pensamentos em símbolos que inventamos, e que podem ser afixados em suportes materiais, pelo simples princípio de riscar um objeto, o mesmo atrito produzido entre uma pedra e outra para a concepção de fogo.
Que há de tão diferente (além do óbvio) entre fala e escrita? Em volta de fogueiras, nossas histórias passavam pela perda e ressignificação pura da memória. O efêmero era regra. Na escrita, a perenidade passa a ser regra. Agora, é como se segurássemos o vento de uma fala no ar e o empalhássemos, como um animal. A taxidermia das ideias permite o relembrar fiel, sem reinterpretações. O que foi dito ou mesmo tão somente pensado, agora vira ordenamento molecular firme. Da audição, passamos para a visão: basta olhar para aquele suporte material e, analisando com certa atenção o formato dos riscos, identifico ali algo a se dizer.
A espécie homo agora transforma o conteúdo de um cérebro, que de certo duraria menos de um século, em algo potencialmente eterno, ou no mínimo bastante duradouro. É claro, há um combinado a não se deixar de lado: o código sob o qual o texto foi concebido. Transformando códigos em palavras, explicitando ideias em um meio de comunicação separado do próprio corpo e deslocável no tempo e no espaço, a escrita representou uma revolução no jogo político entre os diversos bandos de nós que vagavam por aí. A rapidez do embate oral agora ganha um freio, e a dominação, em todos os seus níveis, pode fermentar com calma, como os melhores vinhos.
Segundo passo: a fotografia

Nossa obsessão por congelar o mundo não cessa: a palavra, falada ou pensada, interpreta, passa pela falibilidade humana, simboliza em um nível de abstração que já não nos basta. Inspirados no fascínio de congelar palavras e tê-las diante dos olhos, queremos mais, queremos congelar o mundo, rever momentos que nossos olhos já viram, queremos que o tempo retorne. Devagar, vamos nos entendendo com a capacidade de representar no papel: perspectiva, sombra, proporções… a pintura se consagra como arte por representar o mundo aos olhos de um ser humano, com suas próprias dores e alegrias. Mas não é isso que nossa tara pede: não queremos o humano aqui, queremos uma representação tão fiel que a intervenção humana jamais possa alterar.
Surge a foto e o vídeo. O frear do mundo, assim, ganha uma aparência mais robusta de objetividade. No fundo, nossa angústia é por sempre parecer que não fomos nós que inventamos nossos próprios símbolos.
A santificação da fotografia é tanta que até hoje louvamos um vulto preto em uma imagem em preto e branco. Ali, bem pequeno, ele nos parece ouro: é o primeiro ser humano fotografado. O fato de olharmos com tanta atenção para uma mera silhueta demonstra bem o anseio da espécie: registrar é preciso. O engraxate em breve sairá dali, irá pra casa jantar e conversar com a esposa. É preciso que o momento esteja estático e documentado, exato, objetivo, sem interpretações.
Terceiro passo: transmissão
Congelar não é o objetivo final de uma sociedade. Lá atrás, na fala, havia algo que talvez esquecemos de considerar: o movimento. O ar é perito em sua capacidade de carregar coisas entre espaços. Da boca ao ouvido, a transmissão ocorre graças às propriedades físicas que naturalmente desfrutamos. Mas e agora? Com nossa invenção de modas, como vamos reproduzir a capacidade de transmitir, tão leve quanto o ar, nossas histórias e ideias? Se tudo está petrificado, precisamos aprender a atirar as pedras. Eletricidade, ondas eletromagnéticas e até radiação nos ajudam a imitar a mãe natureza. O rádio é uma espécie de ar artificial, levando para mais longe do que este informações importantes. Nações do mundo passam a sentar-se juntas ao redor da fogueira, e a fala volta ao jogo, anabolizada. Mas não apenas ela: com a TV, imagens circulam pelo mundo inteiro. No final das contas, vem a internet, e podemos transmitir oralidade, escrita e imagem com facilidade entre os mais diversos cantos do mundo, tudo graças à ideia que fez surgir a escrita: congelar ideias, gravar pensamentos, frear a dialética em nome da memória fiel.
Hoje, somos um só bando. A internet trouxe a possibilidade de reunir humanos diferentes ao redor de uma mesma fogueira. Mais do que isso: não apenas a omnisciência torna-se natural, mas o registro vira ponto inevitável. Cada passo na rede fica eternizado em um sem número de aparelhos. É um diálogo com todos os elementos da espécie, e um diálogo onde nada se perde. O movimento da fala cede espaço à sobreposição globalizada de escritos, fotos e vídeos.
Mas parece que queremos mais. Pensar ainda nos parece subjetivo demais.
Quarto passo: Inteligência Artificial

Simulamos o ar, a visão, a fala, mas falta algo: nosso cérebro ainda parece real demais. Se as mentes falham, precisamos congelar mais do que simples ideias: precisamos congelar a própria noção de conhecimento, colocando em um simulacro tudo o que a espécie já produziu, e ensinando este a responder às nossas angústias, como se humano fosse.
É o passo final do frear da dialética. Saímos do paradigma da fala livre, onde as ideias se reinventavam a cada interação, para o paradigma da inteligência artificial, em que uma máquina congela a própria capacidade que o conhecimento tem de se contrastar e criar novas formas, evoluir enfim. A história da comunicação humana é a história da tentativa da espécie de frear a própria inquietação constante das ideias. No frenesi de registrar, simular e transmitir, estaríamos nós aniquilando a natureza mesma do conhecimento, que é inconstante, mutável e próximo? Estaríamos aniquilando a dialética? Como será o futuro 100% IA? Todos os paradigmas se tornarão estáticos, prontos pra tão somente serem consultados?
“Faça um resumo sobre a revolução francesa”, “faça um artigo de opinião sobre as duas guerras mundiais”, “faça um artigo científico sobre a psicologia das massas”. O que estamos dizendo é: “reproduza o status quo, para que eu não precise me dar ao trabalho de movimentar o mundo das ideias”

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