Ercília: excomungada e esquecida em sua terra natal

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Mococa é cruel com quem é cruel à tradição. No caso de Ercília Nogueira Cobra, não foi diferente. Nome de peso no pensamento feminista, a escritora conseguiu, com apenas duas obras, movimentar o seu presente, que hoje é nosso passado, e o nosso presente, ao abordar a virgindade como “anti-higiênica”, um mal aos nervos, um tabu sem sentido. Presa ao fardo de nascer mulher em uma sociedade patriarcal, vinda da família de Venerando e de Oswald de Andrade, a escritora tem, hoje, sua morte presumida, já que o aparelho do estado achou por bem perseguir uma mulher que ousava pregar a liberdade.

Ainda me causa indignação e desespero ver que sequer um banco de praça recebeu o seu nome. Escrita por homens, em sua maioria conservadores, a história de Mococa optou por apagar Ercília Nogueira Cobra de suas páginas. Seus livros parecem não existir nesta terra. A elite patriarcal é muito boa em reescrever a história: optaram por inventar vocábulos em tupi, para criar uma epopeia do príncipe no cavalo branco gritando “vejam aquelas mocoquinhas”, ao invés de aceitar que essas terras, aquíferas que são, foram nomeadas pelos próprios habitantes, que de tanto avistarem o peixe-cobra (moçum) no leito dos rios, acaba por dar a mesma designação que vemos se estender até o litoral paraense: moçum óca, Mococa. As traduções fiéis não interessam, a mocoquense que rompe com a tradição não interessa; interessa manter o status quo. Se há alguma conquista, que seja dos homens.

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