
Não é segredo ao mocoquense mais atento a dívida pública enfrentada pelo poder executivo. Esta já faz com que cada cidadão tenha – mais na realidade tributária do que sua imaginação política possa sonhar – quase quatro salários a pagar a servidores públicos que processaram o gabinete, agências de crédito, fornecedores, INSS, FGTS e outros credores que não cabe citar um a um.
A poucos palmos da janela das decisões, para onde aponta os olhos a mulher de Mococa, está a Câmara, financiada pelos nada famosos “duodécimos”. As doze parcelinhas que fazem o sustento do legislativo acabam não sendo utilizadas em sua totalidade, fato que não passa desapercebido por quem faz do marketing político seu apanágio. Orgulhosa, a Câmara anuncia a devolução de milhões à prefeitura. Orgulha-se, mas parece caminhar no sentido de quem não quer repetir o feito.
Quem entra no prédio do poder legislativo municipal tem a sensação de adentrar em um universo paralelo, totalmente distinto, em cheiro, atmosfera e textura, do mofo das unidades de saúde, ou das infiltrações das escolas, ou mesmo da máquina do tempo que é um CRAS, sempre nos levando a um passado que poderia ser nostálgico, não fosse o signo de má gestão que se encerra nos balcões antipáticos do serviço público municipal. Aqui na Câmara, é diferente: painel eletrônico, sorrisos de bom dia, boa tarde, boa noite, sofás confortáveis na recepção. Nas reuniões, quaisquer que sejam, o símbolo mais discreto e contundente da ostentação que o executivo sugar daddy é capaz de proporcionar: os copinhos de água Daflora, sempre na beleza da bandeja de prata. Aqui não há problemas, é passárgada.
Mas o luxo parece não envaidecer suficientemente os nobres edis. Para o narciso que se olhou uma vez nas águas, estas precisam estar ainda mais cristalinas quando do retorno à contemplação: R$860 mil serão aplicados na vaidade de vereadores que querem gabinetes individuais, muito embora apareçam para verear tão somente uma vez por semana, nas sessões ordinárias – e ainda se abstraem facilmente, diga-se de passagem, fazendo do celular uma fuga para o tédio do “em discussão, em votação, os que forem favoráveis permaneçam como estão, aprovado”. Querem mais: querem um estúdio de TV apenas seu, algo que traga um ar de “cidade grande” semelhante ao que sentiram alguns com a vinda do McDonalds.
“Devolvemos, mas não mais devolveremos”, anunciam as atitudes da Câmara, em sua cada vez maior falta de empatia para com o endividamento do órgão que cuida de botar remédios na farmácia municipal e giz nas escolas. Os novos parlamentares sonham entrar em um transe causado pela subida da escada do PAT, e ali sentirem-se como deputados estaduais caminhando pelos labirintos voluptuosos e intermináveis da ALESP. Quem sabe com um pouco mais de imaginação – quem sabe até alguns gramas dos novos ópios – consigam visualizar-se em Brasília, rodeados de assessores, malogrando a imprensa enquanto comem um McDonalds de cidade grande. “Vou para o meu gabinete”, é a frase de poder com que sonham, sem saber que o tédio de possuir não se atrasa tanto à ânsia por ter.
A nós, resta olhar com pena para as doces ilusões, e com repúdio para os luxos que vão para muito além de dobrar o próprio salário. A Câmara Municipal de Mococa tornou-se sinônimo de falta de empatia, um exercício contínuo de abstração da própria realidade mocoquense. Tornou-se uma ilha de vaidades em um mar de calamidades.

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