Ao vivo de Washington

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Causa e efeito, aqui, se abraçam

Ouvi Bonner justificar – quase como se tivesse ouvido minhas críticas: “estamos cobrindo as eleições americanas daqui de Washington, porque os EUA são uma grande potência militar e econômica”. Concordo, com o seguinte adendo: *cultural e informacional. E de onde vem esse poderio a mais – talvez até mais potente do que os anteriores – senão da própria mídia internacional que justificar e se submete? O discurso jornalístico – construído em faculdades cuja ideologia do ensino jornalístico cultua como mitos os grandes nomes do jornalismo yankee – alimenta a hegemonia que, em seguida, finge tão somente comunicar: “não é culpa nossa, apenas seguimos a correnteza”.

Aqui, tal conjuntura ganha, em plena pandemia, um ator a mais: a CNN Brasil, assumida e declaradamente “americana”, celebradora da cultura estadunidense na sua programação, amante de anglicismos (certo dia, ao se assustar com o narrador estrombólico da emissora, minha tia me pergunta: “que que significa breaking news?”. Descolonizei, e ela entendeu: “plantão”. Agora, se há aqui uma concorrente que ameaça o pódio do “falar dos americanos”, a corrida pela cobertura da eleição alheia torna-se ainda mais apetitosa ao marketing editorial. “Emissora americana entra em jogo para incentivar o agendamento Yankee na imprensa brasileira”, eu manchetaria.

E isso tem condições de se alterar?

Eu diria que já é tarde. O mito de que, do modo que está, a imprensa é “aideológica” já se instaurou. Falar em jornalismo decolonial soa como projeto marginal, como fala de intelectuais muito inteligentes, mas muito partidarizados e sem qualquer financiamento, do tipo que possuem e-mail ainda no “gmail” e pedem doações via financiamento coletivo. Se um faz, outros querem fazer, antes que seja tarde. O que não contam sobre o Agenda Setting é que ele é viral e obrigatório em certa medida, jamais um poder para ser exercido na medida da bel vontade.

Certa vez perguntaram qual a minha ideologia. Pessimismo, respondi. O cursus da história, no seu vaivém redundante, não me permite vislumbrar mudanças em curto, médio, longo ou longuíssimo prazo. O discurso do “falamos dos yankees porque são poderosos”, que em si confere o próprio poder, só tende a fortalecer-se, ainda que as universidades tornem João do Rio o novo Truman Capote.

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