Ainda capitão do exército, ex-presidente surfou na onda de indignação dos militares com os próprios salários. Até mesmo a “Operação Bêco Sem Saída”, suposto plano de atentado a bomba, o ajudou a angariar capital político. Pouco tempo depois, já estaria vereador pelo Rio de Janeiro.

Início de um “mito”. Jair Bolsonaro foi aprovado na escola preparatória de cadetes do exército em 1973. Em 79 já era primeiro Tenente e em 83, alcançou a patente de capitão. Seu percurso no exército, entretanto, duraria pouco mais de uma década. 📰Em 3 de Setembro de 1986, Jair inaugura sua carreira política com um artigo na Veja, onde reclama do próprio salário – de 8 mil cruzados somado a 25% de auxílio moradia. No dia seguinte, é preso, e passa os próximos 15 dias na cadeia. Mas compensou: acabou virando Vereador, Deputado, Presidente da República. Como isso aconteceu?
A revista Veja foi pivô do que quase virou um motim nos quartéis. Foi ali que o militar ganhou espaço, na seção “Ponto de Vista”, para publicar o artigo “o salário está baixo”. 💸 O gancho era a demissão em massa de militares da AMAN por “homossexualismo”, uso de drogas e falta de vocação. Bolsonaro usa o evento para dar sua versão: não seriam expulsões, mas sim desistências:
“mais de 90% das evasões se deram devido à crise financeira que assola a massa dos oficiais e sargentos do exército brasileiro”.
( Jair Messias Bolsonaro, “O Salário está baixo. Revista Veja, 1986)
📄📃📃Cópias de sua publicação foram xerocadas e distribuídas clandestinamente nos quartéis. Insuflados pelas palavras do artigo, cerca de 300 capitães do exército assinaram um manifesto reiterando a reivindicação. Os Militares, que já naquela época ganhavam mais do que servidores civis, o classificavam como “grande corajoso”, mas “intempestivo”. Do outro lado, membros do PCB e PCdoB comemoravam o artigo por sua capacidade de minar o exército, e instruía seus militantes a explorar ao máximo o descontentamento a que Bolsonaro trouxe luz.
🚫A lei militar impede manifestações como essa, considerando-as falta grave. O ministro da aeronáutica, Octávio Moreira Lima, criticou as reclamações, acusando os militares envolvidos de quererem “lançar a semente da discórdia e disenção nas Forças Armadas”. O Ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, advertiu as tropas acerca de consequências disciplinares de tais manifestações.
✊🏻A prisão veio, mas também veio apoio. A repercussão chegou até aos porões da ditadura: o deputado e militar Sebastião Curió, do PDS, após manifestar solidariedade a Bolsonaro, ameaçou contar “tudo o que sabe” sobre a ditadura a quem o pressionasse a se retratar. Opinião pública, jornalistas, políticos e claro, militares: eram muitos os que apoiavam a empreitada de quem, por conta da prisão, seria promovido a vítima digna de simpatia do povo, tal qual Lula e seus mais de 500 dias de prisão na lava-jato.

“A situação está um caos não é de agora, mas foi ele quem injetou em todas nós a coragem de levar a cabo essa luta”
(Pensionista militar, em apoio a bolsonaro. Correio Braziliense, 1986)
No meio do caminho tinha uma bomba

💣Mas a Veja publicaria mais, dessa vez colocando o capitão em maus lençóis: em 25 de Outubro de 1987, o veículo divulgou a reportagem “Ordem Desunida”, onde apontava que, durante entrevista, Bolsonaro confessou que estaria aprontando uma reação contra os ganhos que considerava insuficientes: a “Operação Bêco sem Saída”, plano dos dois que consistiria em atentados a bomba, com o objetivo de pressionar as autoridades pelo aumento almejado.
Logo após a divulgação, Jair vai a público alegar que nunca fez tal confissão. Diante do Ministro do Exército, voltou a negar, inclusive por escrito, que tenha mencionado qualquer plano terrorista e que jamais concedeu tal entrevista. ⚔ A Veja, então, declara guerra a Jair Messias, detalhando o ocorrido: duas testemunhas ouviram Bolsonaro confessar o plano à repórter Cássia Maria: o fotógrafo Ricardo Chvaicer e o motorista Luís Antônio da Silva Coelho. A revista alega que foram 4 os encontros entre Cássia e Bolsonaro, todos para falar das bombas.

Mas não era só palavra contra palavra: a Veja tinha documentos. ✍🏽Em dois desenhos, a ideia mostrava-se prejudicial para além da caserna: o capitão esmiuçava que pretendia colocar, em tubulações de adutoras do rio Guandu, que alimenta o fornecimento de água ao Rio de Janeiro, dinamites acionadas por um mecanismo instalado em um relógio.
💬🔫Ao depor diante do Conselho de Justificação, Cássia teria sido ameaçada de morte por Bolsonaro que, na outra sala, separada por um vidro, teria feito um sinal de arma com as mãos, disparando contra ela. Questionado pela jornalista, disse que não era uma ameaça, mas que ela “poderia se dar mal” se insistisse em incriminá-lo.
⚖Apesar do afastamento por terem mentido que jamais concederam entrevista à Veja, o STM inocentou Jair Bolsonaro e Fábio Passos da acusação do atentado. O placar foi de 9 a 4. A maioria considerou que as provas apresentadas pela Procuradoria-Geral da justiça Militar eram “contraditórias e inconsistentes”. É que, enquanto Polícia Federal concluiu, em laudo, que os desenhos eram de Bolsonaro, o laudo da Polícia do Exército defendia que não era possível dar certeza da autoria dos traços. No final das contas, funcionou: Sarney aumentou em 110% os salários dos militares.
🔊O jornalista Luiz Maklouf Carvalho teve acesso exclusivo aos áudios do julgamento secreto. No áudio, os ministros desqualificam Cássia. Maklouf conclui que, uma vez que haviam sim laudos suficientes para a condenação, o que houve, na realidade, foi um acordo com o exército para que ele entrasse para a reserva depois do julgamento, em troca da absolvição:
Depois de tudo, eleito

Foi nesse interim, marcado por polêmicas, prisões e apoio da imprensa – comovida pelo que consideravam uma reivindicação justa – que surgiu a projeção política. Após entrar para a reserva, em 1988, era eleito vereador no Rio de Janeiro pelo PDC, com mais de 11 mil votos, grande parte dos quais vindos da própria vila militar onde viveu. Era o início de contínuos mandatos que durariam 33 anos.
📰A vitória já era dada como certa pela imprensa. À época, Bolsonaro aparecia no “Jornal do Commércio”, do Rio de Janeiro, definindo-se como de direita, apoiando Leonel Brizola e usando a frase “o militar é um cidadão” para pregar a participação dos fardados na política partidária, até então tabu. Uma de suas bandeiras, à revelia do que a conduta das forças armadas aceita, era pela “liberdade de expressão do militar”.
“O capitão entende que Luiz Inácio Lula da Silva, a estrela maior do partido dos trabalhadores ‘foi importante para solucionar os problemas enfrentados pelas comunidades do ABC’”
(Jornal do Commércio: “Bolsonaro: Brizola pode ser a solução”, 1988)
🤝🏻Bolsonaro foi um dos três eleitos que não compareceu à própria cerimônia de diplomação. Os outros dois? Chico Alencar e Guiherme Haesser, do PT. Bolsonaro e PT estavam longe da inimizade que hoje travam: o deputado petista João Paulo chegou a apresentar uma PEC de anistia para qualquer punição dada até a data da promulgação da constituição. O projeto poderia ter beneficiado diretamente Bolsonaro no caso da mentira ao Ministro Leônidas. O próprio exército, aliás, foi contra.
Mas os ânimos se exaltaram na eleição presidencial. O Bolsonaro de 2022, que falava em urnas fraudadas e que só sairia da presidência morto ou preso, manifestava, no pleito entre Lula e Collor, sua preocupação:

“Se Lula não for eleito, por exemplo, é possível que a ala xiita do PT não concorde pacificamente com a derrota”
(Jair Bolsonaro, Jornal, do Brasil, 1989)
Falas e agressões na vida pública

💣Em 91, já Deputado Federal, via sua ideia ressurgir: militares insatisfeitos com seus salários explodiram uma bomba caseira em uma estátua do patrono do exército, Duque de Caxias, no centro de São Paulo. Ao comentar sobre o caso, Bolsonaro classificou o crime como “ato isolado, mas que pode ser o primeiro de uma série”, caso não houvesse mais um aumento salarial.
– aqui, cortamos a cena para falar de outro dos personagens da epopeia de república: é que nessa época, mais especificamente em 1992, Frederick Wassef era preso temporariamente por suas ligações com o Lineamento Universal Superior, seita responsável pela morte de 6 meninos de 10 a 13 anos, além de outras vítimas feridas ou desaparecidas. A prisão, porém, foi pela suspeita de envolvimento no desaparecimento do menino Leandro Bossi, de 6 anos, no Paraná. As investigações acabaram descartando o envolvimento de Wassef no desaparecimento. Segundo matéria do estadão, Wassef era responsável pela distribuição do livro “Deus: a grande farsa”, de autoria da líder do grupo, Valentina de Andrade. Voltemos a Bolsonaro.
Em 93, o Deputado Federal usou a tribuna da Câmara para pedir o fechamento do Congresso Nacional. As falas em defesa da barbárie só aumentariam: “Pinochet deveria ter matado mais gente”, disse o parlamentar. Bolsonaro também defendeu que teria sido melhor que a ditadura tivesse matado Fernando Henrique Cardoso.
Já em 98, em uma vila militar do Rio de Janeiro, Bolsonaro reaparece nas manchetes após espancar pelas costas Conceição Aparecida Aguiar, de 42 anos. Ele confessou a agressão. Quando finalmente se lançou à presidência, em 2018, recebe o apoio de Conceição Aguiar. A aposentada justifica a decisão dizendo que Jair é o “único que tem caráter, personalidade e não quer o mal para a família”.



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