Noemia Cobra Leite: a escritora mocoquense que fez fama em Rio Preto

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Irmã da escritora feminista Ercília Nogueira Cobra, Noemia destacou-se por poemas, apoio ao divórcio e críticas à Igreja Católica. Leia aqui alguns dos seus escritos.

Mocoquense esquecida. ✍🏽Já falamos aqui da escritora Ercília Nogueira Cobra, feminista solitária que desafiou as tradições que sua família, da descendência de Venerando Ribeiro da Silva, fundador de Mococa, impunham. 🔎Mas outra das filhas de dona Jesuína se destacou nas letras: trata-se de Noemia Cobra Leite, professora, escritora, poetisa e jornalista, a terceira dos 6 filhos de Amador Brandão Nogueira Cobra, nascida com o nome de Noemia Brandão Nogueira Cobra em 22 de Outubro de 1894, depois de Estella e Ercília.

📰Formada professora em Casa Branca, Noemia foi diretora do Departamento de Teatro da Casa de Cultura de São José do Rio Preto em 1946, além de trabalhar no jornal A Notícia, da mesma cidade. Mas seus escritos foram além, sendo publicados em periódicos de São Paulo, São Carlos, Jaboticabal, Barretos, Poços de Caldas, Limeira, Sorocaba e Marília. Faleceu em 10 de Agosto de 1981, aos 86 anos, sem que sua obra fosse lembrada ou celebrada em sua terra natal. Em 2001, abraçada pela terra onde fez carreira, foi eleita para o rol das 100 Mulheres Riopretenses do Século XX.

Obra

🔎Nosso passeio pelas pegadas da escritora começam em 1937. A contexto, o Brasil acabara de entrar na ditadura do Estado Novo, e a família Cobra, pobre e já sem o patriarca Amador Brandão, acabara de perder e irmã mais velha Estella (1934) e a matriarca Jesuína Ribeiro (1935). Quanto a Ercília, esta já morava em Caxias do Sul, onde fez a vida como proprietária de um bordel. Aqui, Noemia tem 42 anos e ainda utiliza o nome de solteira. Já envolvida em temas esotéricos, o título é provocador: “a ilusão da morte”.

“Para o homem que atingiu preenchimento, que não se separou do movimento da realidade, não há morte.” ( Krishnamurti)

Por entre as tumbas,
a areia escaldava.
O sol, na alvura dos mármores, era fogo.
Insetos rumorejavam entre flores murchas.
As sombras dos ciprestes marcavam, na terra,
o decorrer das horas.

Tudo, no cemitério,
era um hino. frio, mudo.
a desdobrar estrófes vazias
à VIDA.

No calor das sepulturas,
escaldadas por um sol rutilante,
riam as caveiras,
na mesma placidez,
em que, pelas noites frias,
o orvalho perolizava sobre as lajes.


Sentia-se no cemitério,
apesar do sol,
apesar das flores,
apesar das cruzes a pontilhar os mármores.
o medo,
a dúvida,
a tristeza inconformada
que prende a carne à carne,
que liga seres,
na roda egoísta do amor terreno, do sepulcro.
da posse da matéria.
Circulo de dores,
que põe ante toda a alegria
a boca escancarada e negra
do sepulcro.

O homem de hoje,
como o seu avô das cavernas
que primeiro assistiu ao deambular
da aurora terrestre,
acovarda-se ante a frialdade da norte,
sente-se pequeno,
desprotegido,
inseguro.

Curva-se ante a morte
na reverencia
de quem teme um perigo desconhecido.
No seu temor, invoca o além,
o covil de onde a morte estende
a sua garra irreverente,
numa suplica em que a ignorância
se transforma em prece,
num apelo de náufragos
ao se desfazer a ultima esperança.

E, no silencio das tumbas,
os vermes,
a VIDA,
continuam a sua obra.
Enquanto nos ossuários
há um riso alvar,
que lembra o repasto de aves de rapina.

Cemitério,
reduto onde a VIDA esconde à Vida
os frangalhos
de um amor já inexistente.
Onde os vivos, estendem em vão os braços,
à procura de outros braços…
Onde aos clamores do desconsolo
responde o nada,
o vazio de uma esperança morta.
Onde, apenas há o crepitar da VIDA
que passa nas asas do inseto insolente…
da seiva que sobe
do cadáver á fronde…

Neste ambiente pesado
da duvida e do medo,
onde paira a alma?
Crerão na sua existência
os que se sentem presos
á matéria putrefata
ao tumulo,
à morte?

E, através de SUAS palavras,
novamente ELE voltou a mim.
Como a luz que faz clara a escuridão,
em minha mente
Seus conceitos resplandeceram.
Compreendi, então, o esvoaçar doudejante
dos que temem,
dos que se apavoram,
ante a própria Realidade
e procuram, nas crenças,
um paliativo
para o seu temor.

Compreendi por que a Humanidade
em sua busca
da Felicidade no imperdurável,
cria ilusão,
cria proteção
acabando por, no intimo do seu ser,
negar o impalpável,
agarrando-se a um fragmento de esperança,
crendo e não crendo. revelando por seus atos
o aflorar do medo em sua mente,
arrastada á matéria.

Aos pés do tumulo
é a Humanidade um quadro vivo
– do medo,
da incerteza do além.
Compungida ante um sudário,
agarrada a ilusões,
apavorada.
arrasta após si
– DEUS.
acolhendo-se amedrontada
sob o manto que lhe veste
a sua cegueira…..

E, ELE, disse: –

Que te importa o além
Que te importa o que está para lá
da tua compreensão terrena?
Preenche o momento que passa.
Vive…
embebeda-te de luz!
Na trajetória que te marcou a Vida,
há rosas,
sombras,
perfumes,
alegrias…

Não deixes que se evolem os dias
no temor do que está por vir.
Nasceste.
Tornaste-te um ponto
no grande drama humano.
Movimenta-o.
Assim como não recuas assombrado
ante o mistério da inteligência
– que se fez homem,
não te preocupes com o Ser
que se torna em pó.
O que apenas importa
– é o preenchimento da Vida.
No grande relógio das horas do teu destino
– não és tu quem dás a corda…

Assim, sob a luz ardente do sol,
Ele falou no silencio do meu ser.
No silencio das tumbas
só havia o pó a vestir esqueletos nus.
O azul era o íris mudo.
de um olhar impenetrável…
A Vida e a Morte se confundiam
num mesmo amplexo
de incertezas.

Haverá morte?
Haverá vida?

No desenrolar dos astros
a ETERNIDADE sorri
e passa
desabrochando em flor
hum
ETERNO PRESENTE.

É o cadáver transformado em som
em cor
em perfume.
Em VIDA!

(A Ilusão da Morte, de Noemia Cobra Leite)

📰As palavras de Noemia, enquanto jornalista, encontradas no “A notícia” em 1951, mostram diferenças para com sua irmã feminista não vão tão longe. Dona de uma escrita despojada e ácida, tal qual Ercília, e já aos 56 anos, a escritora defende o direito ao divórcio:

(…) Julgo que a Igreja Romana, à qual pertence a quase totalidade da nossa gente, não deverá mandar que seus ministros excomunguem os que querem um viver honesto e de responsabilidade, e, sim, deveria ter, desde antanho, desde um passado longínquo, um passado que se perde na noite dos tempos e tem vindo até nossos dias, excomungado todos aqueles que, não respeitando o tálamo conjugal, tivessem abusado do seu “direito” de homens semeando filhos, como dizem… naturais, a torto e a direito por esse mundo afora, bem como os que, sendo casados, viviam em mancebias. Isso sim, é que seria cultuar a indissolubilidade dos laços matrimoniais, mas, já que a igreja tem feito vistas largas sobre tal perjúrio, deverá agora ao menos coerente e respeitar a vontade e o direito daqueles que, tendo fracassado numa primeira tentativa matrimonial em que puseram toda a esperança de constituir um lar feliz e digno, pretendem tentar novamente dentro da Lei, dentro da Honestidade, e, mesmo, da Religião

(Noemia Cobra Leite, Divórcio. A Notícia. 30/08/1951. P.04).

Aqui, as semelhanças chegam a um “não e não!”, fórmula utilizada por Ercília em seus livros. Muito para além disso, o uso constante de interrogações (quase como se o leitor estivesse e um inquérito) e o uso de apelidos como forma de deboche aproximam mais ainda as irmãs:

Divórcio – uma palavra apenas, uma simples palavra, foi o bastante para deixar em polvorosa toda a nossa gente “granfa”, a nossa gente que bate no peito e se vangloria de sua fé, de sua honradez, de sua probidade!

Por que tal celeuma? – por quê? Não é por haver cirurgiões que alguém se lembrará, por seu próprio Gaudio, de mandar decepar as pernas; nem tão pouco pelo simples fato de existirem cadeias é que alguém se disporá a tomarem-nas como habitação por sua livre e espontânea vontade.

Não e não! Portanto, o mesmo se terá de dar coma lei do divórcio, e não será pelo fato de ela se ter tornado uma realidade que todo mundo quererá a ela recorrer, para dela se servir, como se, se tratasse de um coquetel qualquer”

( Noemia Cobra Leite. Ainda sobre a lei do divórcio. A notícia. 04/09/1951. P.04)

✝No ano seguinte, encontramos o texto “Joana D’arc”, publicado na revista “O Theosophista”, do Rio de Janeiro, onde já revela sua crença e suas críticas à Igreja Católica:

O aniversario do suplício de Joana D’Arc faz-nos voltar os olhos para o passado, não apenas o passado em que foi protagonista e mártir, mas o pleno passado, um passado que se perde no alvorecer da história da vida humana sobre a face da terra. Um passado que nos leva aos arcanos do tempo, descerrando sempre aos nossos olhos uma humanidade que, em qualquer época e sob qualquer santuário ou símbolo, sob o qual se achasse genuflexa, foi sempre perversa e má, e sempre orou ao céu, tendo sempre sobre a terra os olhos, o coração, a mente.

Todas as filosofias, todas as for- mas religiosas, foram impotentes para desviar-lhe a atenção das coisas terrenas para as coisas do espírito.

Sempre achou ela ser mais prático e eficiente trazer Deus para junto de si, como qualquer coisa sua, do que elevar-se a ELE espiritualmente, vivendo as doutrinas pregadas pelos seus vários discípulos, vindo até ela em varias épocas e em várias circunstâncias.

À palavra ela sobrepôs a forma.

À doutrina, ao VERBO, ela sobrepôs a pessoa, a matéria.

Cristalizou a ideia em forma corpórea. Organizou o culto. Petrificou o espírito.

Resultado: o caos. Um caos que teve em cada época um bode expiatório para arcar com as culpas que não cabiam a este ou àquele e, sim, in totum, a todos.

Por isso ela não pôde compreender Joana D’Arc, qualificando- de feiticeira, negando-lhe a faculdade de poder ouvir vozes que não as terrenas, de visualizar Santos e Anjos, além daqueles materializa dos nas imagens dos altares.

Vivendo Joana D’Arc numa época em que a Igreja Romana era única e soberana absoluta entre povos e governos, tão forte que os próprios Reis se sentiam estarrecidos ante o seu temeroso e terrífico poder, a coragem da pobre inocente afirmando convictamente ser tal qual nova e estranha sibila, impulsionada pelo Alto, para, por seu intermédio, ser salvo e coroado rei de França, outro não poderia ser o juízo da época a seu respeito senão aquele de que ela estava impregnada do maligno e que não passava, portanto, de uma perigos e miserável bruxa!

Para nós, teosofistas, para quem o lado oculto é mais potente e real do que o lado material das cousas o caso de Joana D’Arc é uma realidade perfeitamente compreensível e explicável.

É que, por detrás dos atos humanos, há uma força imponderável a agir, força tamanha e tão maravilhosa, que ultrapassa o poder de todos e de tudo, força que rege tronos e altares, sem que dela se apercebam os míseros mortais, por demais embebidos em seus próprios sentimentos de força, em seus próprios sonhos de grandeza e poderio!

Foi essa força, força que poder algum é capaz de destruir, que foi buscar essa criatura humilde, mas grande em seus reais méritos, na aldeia de Domremy, a pobre desconhecida pastora, para fazer dela o símbolo de um novo estado de coisa, que deveria modificar o mundo das ideias.

Durante a guerra dos cem anos, travada entre o que chamamos hoje França e Inglaterra, que naquele tempo não existiam, o mundo de então era composto de grandes feudos, em que o espírito de Pá- tria ainda não existia de uma maneira concreta e definida; e, para que esta ideia de Pátria evoluísse entre os povos de uma maneira cabal, foi a própria Evolução buscar, para fazer dela fermento sadio e puro, a simples e devotada donzela do povo, com quem o povo se levantou, e com ela lutou, não por um rei, não por um DEUS, mas, sim, por uma bandeira!

O mesmo anjo que anunciou à Virgem Santíssima a sua divina concepção, foi o mesmo que levou a mensagem a Joana D’Arc, exortando-a a partir, a tomar sob a sua direção as desorientadas hostes de Carlos VII, destroçadas e perdidas, emprestando-lhes uma nova força, a força da ideia, da ideia convicta, que deu àqueles homens periclitantes uma nova energia, um novo alento, levando-os à vitória.

Terminara o seu papel sobrenatural: Entrara em ação o poder terreno: é prisioneira, é queimada. E desta simples fogueira em que uma pobre e indefesa jovem é sacrificada à sanha de um clero então parcial e ganancioso, de conluio com uma nobreza cruel e despótica, pelas décadas futuras, a chama fulgurante de uma nova etapa na vida dos povos: a ideia de Pátria!

Em são critério não se pode condenar ninguém pela morte de Joana D’Arc. A Evolução, em sua marcha progressiva, necessita sempre de marcos em sua estrada vitoriosa. E esses marcos são sempre feitos de vítimas que os poderosos, por pressentirem o perigo, e pensando debelá-lo, ajudam a triunfar, sacrificando-as.

A donzela de Lorena ouvira, de fato, vozes. Vozes do além, impe- lindo-a à imortalidade, imortalidade que ela tinha de atingir sobre um montão de lenha em chamas. Morreu, tendo abraçado, junto ao peito, (como afirmativa de sua religião, de que não era bruxa), uma simples e tosca cruz, que um dos assistentes, a seu pedido, fizera, ajuntando pedaços de lenha.

As cinzas de Joana D’Arc foram jogadas no Sena. Julgavam os seus algozes que era no corpo dela que estava o perigo. Coitados!

Eram mais ignorantes do que a própria ignorancia! E até hoje ain da não descobriram que a idéia imortal e que, contra ela, jamais haverá barreiras, porque ela é propria Evolução, é o proprio DEUS!

(Joana D’arc, de Noemia Cobra Leite)
@conhecimentoeluz

🧿Helena Blavatsky fundou a Sociedade Teosófica em 1875, sendo importante parte do movimento espiritualista que se iniciaria posteriormente no ocidente. Você já conhecia essa figura simbólica? #espiritualidade #evoluçãoespiritual #autoconhecimento #sabedoria #teosofia #mestresascencionados #energia

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🧳O poema abaixo foi declamado no Hotel Terminus, em São José do Rio Preto no dia 1º de Outubro, dia do viajante. O ano era 1957. A publicação foi feita no Diário de Notícia de Porto Alegre:

Ser viajante
Ser viajante
é possuir o mundo
possuir o mundo
dando-lhe as energias do seu labor fecundo
dando-lhe a sentir o seu sonhar profundo
feito de desapego,
feito de renúncia;
sonho de missionário
que trocou as contas do rosário
por malas de mostruário
que irão suprir as necessidades
de sítios, de vilas, de cidades!
Ser viajante
é viver muito em cada instante.
É conhecer, da vida, todas as artimanhas,
dormir em toda a parte,
na luta desabrida
na luta destemida
contra as patranhas
de uma humanidade
feita de malícia
feita de maldade,
mas, às vezes, também, de quanta bondade,
de quanta lealdade!
Ser viajante
é fazer do mundo o lar,
nunca sabendo onde irá parar;
é trocar a sua morada
pela lama da estrada,
enfrentar perigos,
enfrentar cuidados,
Deixar a sua esposa, o filho pequenino,
entregues à sua sorte, seguindo o seu destino.
À mãe velhinha que poderá acontecer?
Nessa ausência sem tréguas,
comendo os caminhos às léguas,
quem poderá prever
o que à sua volta o aguardará
se nem ele mesmo sabe quando voltar?
é ter alma de aventureiro,
com muito gosto à luta,
ser um pouco interesseiro
pois se é sua a labuta
nem sempre o é o dinheiro
No entanto,
que gaste noite e dia
em seu perambular como animal sem pouso;
que faça, sem cessar, a sua via sacra
aos balcões da freguesia,
terá sempre, alegre, a face,
a cabeça erguida
como se toda a riqueza
que sua mão espalhasse
dando-lhe segurança,
fosse a si próprio que beneficiasse
dando-lhe abastança!
Ser viajante
é dar ao seu trabalho
todo o seu engenho
todo o seu empenho,
vitalizados na selva do seu esforço insano,
dando-lhe da sua vida,
dando-lhe do seu IDEAL,
sobranceiro ao desengano,
não vendo contratempos,
não conhecendo tropeços
e sem desfalecimentos,
e sem esmorecimentos
a caminhar para a frente
seguindo a sua mala.
Espírito de guerreiro
feito para combater
feito para lutar
no combate da inteligência,
na luta da concorrência
Sempre airoso,
sempre atencioso
em todos os embates
Ser viajante
é precisar sujeitar-se a tudo
envolvendo num sofrimento mudo
todo um mundo de esperanças que ruiu
Ver seus sonhos de ventura,
Ver seus sonhos de ternura
varridos pelos ventos,
levados nos tormentos
de um sacrifício inútil
que transformou num calvário
o castelo extraordinário
do seu sonhar feliz
que foi tudo o que lhe restou
daquele sonho louco
feito de fé,
feito de coragem
que tudo lhe levou …
Esperança, juventude,
esforço, saúde,
a felicidade no lar,
o direito de amar …
Ter-se sacrifício pela Humanidade
chegando no fim da mocidade
e ver que foram de urzes e de espinhos
todos os seus caminhos,
sem que nada lhe restasse
ao fim da sua vida
a não ser os ecos dos seus sonhos!
Ah! ser viajante …
é precisar esconder em gargalhadas
os refolhos da sua alma dolorida
a desilusão das vitórias sonhadas
sufocando, em sorrisos, traves de dor,
restos mutilados de voos de condor,
para esconder dos olhares profanos
da sua dor, os íntimos arcanos,
os sonhos do seu peito
então retalhos
do seu sonhar desfeito …
É precisar transformar o coração
fazer dele o relicário
de tudo o que amou
de tudo o que almejou
e ali deixar que passem e repassem
no silêncio do seu sofrer,
na amargura do seu viver,
as poeiras do seu clamar
perfume em sua dor,
os frutos do seu amor!
Vede-os!
Eles aí estão.
Rudes missionários
com um pouco de guerreiros,
um pouco de aventureiros
rostos alegres,
poses destemidas,
arrogâncias de quem pretende
conquistar o mundo inteiro
com… fanfarronadas
feitas de piadas,
feitas de chalaça,
para esconder na graça
para esconder numa alegria enganadora,
feita de ansiedade,
feita de canseira,
soluços de descrença …
soluços de saudade …

(Ser viajante, de Noemia Cobra Leite)

🎅🏻Um ano depois, no natal de 1958, na seção do Movimento Espiritualista Brasileiro no jornal “O Semanário”, em tom protestante, Noemia faz duras críticas ao papa e à igreja católica:

A primeira geração cristã, toda embebida nas reminiscências dos Apóstolos, só cuidou de, ansiosa, beber e reter as palavras de Jesus por eles transmitidas.

Ninguém cogitava de escrever.

Todos ouviam, sentiam, viviam-nas e, esperavam …

Por isso, o Evangelho de Marcos, em nada se refere à Infância de Jesus, nem à sua genealogia. É que ele, como todos os do primeiro século cristão, só se cingia à doutrina do Mestre, aos seus sublimes ensinamentos, e a viver da doce recordação de sua amada pessoa que faziam por manter como presente em suas vidas. Aliás, os primeiros cristãos, esperando como esperavam a volta do Rabino para logo, não cogitavam de outra coisa a não ser o de serem dignos dele quando, em glória, ELE voltasse.

E nesses primeiros cristãos, filhos das escórias das grandes metrópoles por onde o império romano se derramava, tais como Antiópia, Efêso, Corinto, Felipe, Laudicéia, Tessalônica, e mesmo Jerusalém, onde aí ideias socialistas ganhavam terreno já que suas populações miseráveis eram constituídas de gente de várias nacionalidades às quais o sentido de Pátria já havia se tornado vão. A lição toda amor, compreensão, justiça do Cristo, levada pelas palavras não menos edificantes do Apóstolo dos Gentios era como que um suave e consolador bálsamo para esses seres ansiosos de conforto moral e de um pouco de carinho em suas vidas frias e vazias, e iam elas neste campo fértil frutificando, fortalecendo-se, ganhando terreno.

Sim, como não deveriam surgir belas, estimulantes, persuasivas a estas almas atribuladas por mil e uma questiúnculas dos antigos cultos, sempre a ameaçarem-nas com as antigas e rígidas leis mosaicas, proibindo-as, cerceando-lhes a liberdade de vida e de ação, as palavras de Paulo, separando o material do espiritual, quando lhes dizia: “o reino de Deus não tem nada a ver com o comer e o beber
das coisas por outrem sacrificadas aos deuses; isto são coisas que se prendem à vida material, às necessidades do corpo. O reino de DEUS resume-se em ser justo, bom, alegre e ter-se limpo o coração e a mente. O que importa é a abstinência de carnes e as observações pueris de dias e datas. Em si mesmo estas práticas são inteiramente vãs. Cristo nos julgará a todos; cada um responderá por si” …

E, assim esperando num doce sonhar, os primeiros cristãos foram «urgindo, e à medida que os séculos iam passando, ia se diluindo aquele primeiro fervor, aquela ânsia de expectativa e, em seu lugar, uma nova consciência ia surgindo paulatinamente, e aos poucos as palavras de Jesus, levadas por Paulo a todo o mundo de então, iam rapidamente perdendo o sentido e, em lugar delas os fatos materiais iam se ampliando, tomando consistência e, as pessoas, iam ocupando o lugar das ideias. Formava-se a hierarquia. Morria a doutrina. Os
Evangelhos iam-se adulterando. Nada mais da antiga poesia do sublime ideal do Galileu. Todos queriam pontificar,. O joio, o fanatismo, iam criando os apocalipses. O amor ao poder ia criando a separação. A teocracia, à maneira romana, iria em breve divinizar ao homem, ao chefe, colocá-lo vivo em um pedestal e dá-lo a adorar às multidões cultas e incultas. As cultas o adorariam adorando nele o poder que eles lhes transmitiam. As incultas, pela sua própria incultura e, pelo desprezo em que viviam, julgando-se felizes de pelo menos poderem compartilhar com os grandes, de uma réstea que fosse na sombra do culto.

Onde, onde aquele lindo ensinar de Paulo: “O ser interior, isto é, a alma, é que adere a DEUS; mas a concupiscência, o orgulho, a carne, estão em guerra permanente com Deus. E esta adesão não se realiza se a criatura não rompe com seus baixos instintos e vive segundo a alma. O corpo a material é o grande inimigo da criatura humana: ele é a própria morte. O espírito, a alma é, pelo contrario, a Vina. O que não é quimera é o Eterno, é a alma, sois vós como espirito que sois.”

E, as trevas materiais ocultaram a luz, o espirito; alma. E o trono material de César foi elevado à dignidade do culto, e o seu ocupante diz-se Vigário do Evangelizador das almas. O vigário daquele que disse não ser o seu reino um reino deste mundo material. E o ouro e o incenso,
elevados a coisas divinas, prescreveram como inúteis os ensinamentos da doutrina.

E, o nosso mundo, o mundo ocidental católico apostólico romano aí está, dominador, eufórico, todo poderoso. É a maior potência de que a humanidade já teve conhecimento. Nele não há sequei o menor resquício dos admiráveis ensinamentos do idílio espiritual da Galiléia. Nele, a alma, o espírito, são mortos. Impotentes. Nele reina, soberano, um homem dono absoluto das consciências pela sua prepotência esmagadas, caladas.

Isto foi o que restou ao mundo. Um poder material imenso a substituir o mais imenso dos sonhos espirituais.
Apenas isto. Apenas a valorização da pessoa humana e a desvalorização completa da justiça, da lealdade, do amor. E, no meio da magnificência do culto da grandiosidade das Igrejas, há todo o mundo de fome, de desnudos, de tarados e miseráveis.

Sim, por todo o orbe malgrado a sua apregoada religiosidade reina o medo, o perigo da guerra, da terrível guerra atômica que pulverizará, indiferente, tronos, altares e povos.

Isto é o que resta a este mundo em permanente farça: Um DEUS Indiferente, que num presépio frio, fantástico, inconsistente, na forma de uma impotente criança, estende os braços à espera de proteção…

Vinte séculos são passados e a lembrá-los uma criança e uma cruz personificando DEUS.

Um DEUS morto sobre um madeiro impassível a ostentar no seu pióprio destino a maldade dos homens…

E entre um ser inocente e um ser impotente, uma humanidade inconsciente que ri, que chora na apologia de uma Fé por ela mesma criada e alimentada.

Um DEUS infantil… Um presépio… Presentes! Festas!

Cadilacs e filas de miseráveis a fitar com olhos dolentes a alegria dos fartos.

Um DEUS crucificado… Procissões.. Jejuns… Prantos! Aleluia! Carnaval…

Virgens sacrificadas em doido bacanal…

E, a bailar às bordas de um abismo, milionários e proletários, crentes e descrentes, jovens e velhos, inconscientes;
passam…

E as palavras de Paulo nos vêm através dos séculos de silêncio “Ó meus filhos, vós em que eu tenho de implantar o ensinamento novo na expectativa de que o CRISTO em vós se forme… “


E, às acotoveladas as multidões passam para o ganho do pão material, esquecidas daquele pão espiritual que JESUS, feito CRISTO, lhe deu para que comendo-o, através de seus ensinamentos, pudessem atingir o caminho do Infinito!

Replicam os sinos… Soam as charangas… Jesus nasceu…

E, em volta de uma criança inerte, a humanidade alardeada, em festa…

(Natal, de Noemia Cobra Leite)

✊🏻No ano seguinte o Semanário, do Rio de Janeiro, publicaria uma homenagem da escritora mocoquense aos caboclos. A homenagem se mistura a um verdadeiro clamor de cunho nacionalista. A época era marcada pela tensão entre JK, João Goulart e as forças armadas, tensão essa que culminaria no golpe militar de 1964.

Meus versos, hoje, são para você, caboclo
Para você, meu pobre patrício abandonado,
fruto mal amanhado deste torrão fértil bendito,
onde a Natureza, numa oferta luxuriante,
como vítima oferece-se ao sacrificante,
no altar imenso da terra…
Onde, onde o hierofante que sacrificar deveria
na ara de Céres? Onde?…

Devia ser você, caboclo, o sacerdote,
e, de suas mãos abençoadas, o pão,
o alimento sagrado, no altar, como oferenda,
ser pôsto!… E você, caboclo, alheio ao esplendor que o envolve, dorme! Não, não dorme não,
vegeta, suplantando no coração da mata,
indiferente aos tesouros que, DEUS, lhe ofereceu, pelo esforço inaudito dos antepassados seus…

Caboclo, quando você, sorumbático,
deixa-se estar, largado de vontade,
acocorado, olhar parado, um bloco imóvel,
silhueta cortada no fundo do horizonte,
confundido na paisagem que se limita ao longe,
a gente diz, caboclo, que você é indolente!
Que o coração de você, caboclo, não sente,
que a mente de você, caboclo, não deduz,
que tudo em você, caboclo, está morto,
que a alma de você, caboclo, não comporta,
a grandeza, o estímulo, a luta …

Caboclo, todos dizem que você é um falido,
e, eu, não creio isto de você.
Não, caboclo, você não é um derrotado, não!
Você, caboclo, é apenas uma vítima do meio.

Caboclo, eu sei da sua vida, do seu desalento!
Sei de toda a crueza de seu viver no seio da mata,
jogado na extensão infinita do nosso sertão.

Eu sei, caboclo, a vida que você leva, na luta feroz,
interminável, enterrado na selva bruta,
das plagas remotas, distantes, perdidas,
longe de todo convívio com seus compatriotas,
separado pela distanciado dos recursos da Ciência,
nascido e criado na mais completa ignorância.

Pobre caboclo caluniado, taxado de relaxado,
a viver no mais completo desconforto, ignorado
dos governantes, perdido nas remotas paragens
que levaram lustros a serem encontradas,
onde, no fundo das grotas, nas areias dos rios,
o ouro cobiçado, dorme! O ouro, a isca dourada,
o sonho acordado dos antepassados de você,
que os levara a afrontarem, destemidos,
tais novos nautas, agruras, perigo, fome, tudo,
tudo para a realização da meta ambicionada!

Aí está agora você, caboclo, como um vencido,
um ser aparte, esquecido dentro da própria vida!

Pobre caboclo, fruto degenerado, enlanguescido,
de uma geração de bravos combatentes,
de gigantes de músculos e vontade de aço,
que acalentavam nas mentes ambições ingentes,
de grandeza, de poderios, de glórias, de riquezas…

Foi essa esperança de abraçarem o mundo,
retirando do fundo das entranhas da terra,
adormecidos tesouros, riquezas inimagináveis,
foi esse sonho de ouro, caboclo, o incentivo, a faísca
que, como labaredas acendeu no peito daqueles heróis,
daqueles homens de então,
os invencíveis desbravadores do nosso sertão,
os destemidos antepassados de você, caboclo,
a fúria do desejo de vencer, de tudo superar,
cortando afoitos as quebradas das serras,
vencendo distâncias, varando rios, matagais,
enfrentando rebeldes as próprias Leis,
as posturas governamentais, o poder jesuítico,
só visando seus fins, a conquista da terra,
na ânsia da arrancar do seio dela, a riqueza que embalada vivia, nos sonhos deles…

Aí está agora você, caboclo, a cismar dolente,
desfeito no peito o sonho de seus antepassados,
a memória incapaz de refazer a epopeia de glória
daquele viver perene de insatisfação,
que os fazia arrostarem sertões bravios,
na ânsia de alcançarem o fito de seus sonhos!
Agora tudo o que resta de um sonhar tão grande
tudo o que resta de tão desmedido querer
é só você, caboclo, só você,
você, e toda a angústia do seu viver!

Almas a penar, corpos esvanecidos, imensa dor
dentro da natureza régia, insuperável,
que o régio sonho deles, legou a você, caboclo, a você.

Qual é a Pátria de você, caboclo, qual?
Ah! você, caboclo, é um enjeitado na própria plaga,
que os ancestrais seus criaram, ampliaram,
ao darem a vida a você. Você e ela nasceram juntos!
São filhos da mesma ânsia, frutos da mesma posse
– você, agora, um simples pária dentro dela, da terra,
que eles conquistaram, ampliaram, defenderam,
para a legarem intacta a você, caboclo, a você.
Você, a quem os grileiros de quando em vez,
vêm, lembrar de que nem a tapera, a sua tapera,
é sua.
Você é mesmo um enjeitado. Um traste,
um animal sem dono ao léu de um destino ingrato!

Caboclo, não deixe a mata matar em você, o estímulo,
toda a aspiração à luta. Desperte, caboclo, desperte!
Arriba, vença a inércia. Vença-se. Alerte sua consciência.
Olhe em redor de você, tudo isso é seu caboclo, tudo.
As terras, as matas, rios, montanhas, as riquezas de suas entranhas!
Tudo, tudo é seu. Se você não despertar, caboclo,
gringos vindos de outras terras, gente dura, má,
gente com o coração a transbordar de ambição,
os olhos acesos nos desejos da cobiça,
virão no rastro de você, e, deixando você, caboclo,
na margem da picada,

Ficarão com tudo o que era de você, caboclo!
Acorde, caboclo, acorde. Acorde antes que seja tarde demais.
Acorde. Sacuda para longe de você, a inércia,
e, com a mesma bravura, o mesmo destemor,
daqueles rudes e bravos antepassados de você,
que venceram a natureza, que venceram o invasor,
disponha-se também você, caboclo, a lutar,
a defender o que é seu,
como uma voz entre as vozes nacionalistas,
a impedir que o fruto conquistado no passado,
o sagrado patrimônio dos ancestrais de você, caboclo,
a mãos estranhas, passe.

Quimporta que a Pátria, o ignore. Acorde-a, caboclo,
Acorde-a com o seu clamor. Com o seu brado de alerta!
Longo já vai o seu dormir. E tempo de despertá-la!
De sacudi-la de seu torpor. De chamá-la à razão.
Que o grito vibrante dos compatriotas do marasmo, possa,
arrancá-la. Para que ela, liberta da opressão estranha,
livre enfim, seu lugar, conquiste, entre as nações libertas,
independentes, soberanas. Que jamais o chapéu de pedinte,
estenda, a esmola implorando de imperialistas mãos.
Que o rótulo infamante de país subdesenvolvido,
jamais se lhe anteponha ao nome. Para que, forte,
na sua aurifulgente flâmula brilhe, perfeita, plena.
É tempo de terminar seu ciclo de esmolante. É tempo.

Vamos, pois, caboclo, vamos, de pé. De pé na luta pelo que é seu,
e resoluto, firme e decidido junte-se aos nacionalistas,
nós o conclamamos. Nós, a PÁTRIA rediviva, a sublime voz,
aquela voz eco de outras vozes que através dos séculos
jamais calou, silenciou, ante a opressão, a escravidão.

Basta de dormir, de tolerar! Bsta! Acordemos o gigante,
e, ao mundo, jubilosos, apresentemos o nosso Brasil!
Um Brasil sem entreguistas, sem derrotistas, sem vilões,
sem vendilhões, sem poltrões, e, sem canalhas
Um Brasil, livre, unido, feliz e triunfante em sua gente.

(Caboclo, de Noemia Cobra Leite)

❤Em 1960, 25 anos depois do falecimento de dona Jesuína Ribeiro (1935), sairia n’O Dia, do Paraná, um pequeno poema de Noemia dedicado às mães. Aqui, há a romantização do sofrimento da mulher, tão criticada por Ercília :

Mãe!
Ainda ninguém se lembrou de glorificar-te.
Ninguém…

Há estátuas e estátua
nas praças, nas ruas,
de filhos teus.
Há templos, monumentos, onde os povos guardam ciosos,
os grandes vultos seus;
mas, a ti,
ninguém se lembrou de erguer um pedestal
ninguém!

Há altar para monja,
para a virgem há altar,
mas, dedicado a ti, não há!
Não há
E, no entanto,
quanto mais é santo
o teu viver
– todo dedicação
– todo abnegação
dando-te aos teus
sem recriminação!

Por isso, ó mãe, dói constatar
entre tantas canonizadas,
nenhuma mãe,
por ser mãe, estar!

Será, ó mãe querida,
que para Deus não
valem nada os sofrimentos teus?

Ó mãe, quando eu sofria,
eu bem percebia
que inda sofrias mais do que eu!
E quando eu te via ajoelhada
pedindo a Deus por mim,
eu também pedia a Deus
que te aliviasse
dos padecimentos meus!…

Que vida dolorosa têm as mães!
Ali naquele altar,
vede: há uma mãe a rezar.
Aonde quer que se implore a Deus,
sempre encontrareis
uma mãe a orar …

Elas que são para a Humanidade
a matriz de onde a vida emana,
elas que nem percebem, da mocidade
a fugidia passagem:
elas que tudo dão ao mundo
– do mundo nunca receberam nada!

Se um Napoleão
tece um hino à fecundação,
é para roubar-lhe os filhos
e um dia cadáveres,
ou inválidos,
restituí-los!

Ó mãe, podes crer..
não há santo no céu
que tenha o teu merecer!

Se não fosses tu, ó mãe,
que seria da obra do Criador?
Tu que te sacrificaste no teu amor
para manter-lhe a criação,
compraste a sua santidade com a tua maternidade.

E, contudo, ainda te julgas culpada,
e ajoelhas-te, ó mãe!
implorando perdão, como se houvesse na Humanidade
quem tivesse direito,
de te achar em culpa,
de te apontar a menor iniquidade!

Aceita, pois, minha mãe querida,
do meu coração o maior preito
que a ti e a Deus tributo
com todo o meu amor,
com todo o meu respeito

(Mãe, de Noemia Cobra Leite)

Referências

NETO, Thaís Helena Ferreira. Comunicação e Jornalismo: Conceitos e Tendências 2.

PÁDUA, Aline Ferreira. A Notícia: um retrato do jornalismo rio-pretense nos anos 1950. 2016.

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