Comendador contava história bem diferente da versão das ‘casinhas’ 🤔

Versão alternativa. 🧒🏼Desde pequenas, as crianças mocoquenses ouvem a mesma história: Custódio José Dias estava passeando pelo povoado, até que avista pequenas casas. Diz aos seus colegas “vejam aquelas mocoquinhas” 🏠🏠🏠. “Seu nome, então, Mococa, assim surgiu, num brado, e logo se espalhou ao povoado”, cantamos em nosso hino.

Mocócas ou Mocóquinhas era o nome de um bairro em Ibituruna-MG onde nasceu em 1763. Depois de explicar que o termo indígena significaria “pequena oca” ou “pequena casa”, o nome pega. O ocorrido é de 1844. Tempos depois, o católico “São Sebastião da Boa Vista”, nome dado ao povoado em 1841, seria substituído pelo indígena “Mocóca”, agora “Mococa”, efeito da teimosia do povo, que sempre insistiu em chamar assim este lugar.
✒A história das casinhas é balizada pelo peso do nome do historiador Humberto de Queiroz, amigo pessoal de Euclides da Cunha. Mas essa pode não ser a origem real do nome da cidade. Dá só uma olhada nessa versão alternativa: 🐟 segundo o comendador José Fernandes, Mococa vem de Moçum, um peixe também conhecido como peixe-cobra ou enguia-d ‘água-doce , abundante no Ribeirão do Meio à época. A abundância era tanta que a região ficou conhecida como óca do moçum (moçum-ocó, casa do moçum).

“O comendador José Fernandes, que residiu mais de 70 anos em Caconde, comarca a que Mocóca pertenceu mais tarde, dá também a seguinte versão ao nome de “Mocóca”: diz ele que no Ribeirão do Meio, que corta a cidade em duas partes quase iguais, havia e há até hoje um peixe, uns bagres grandes que às vezes atingiam o tamanho de um metro, chamado esse peixe Engia ou Moçum, abundando esse peixe na verdade nesse ribeirão, dado essa grande quantidade de peixes, dizia-se que ali era o lugar que morava o peixe moçoum-moçum-ocó. E por corruptela, afinal, veio a predominar o nome de Mocóca.
(reportagem de Arnaldo Machado Florence no Correio Paulistano de 8 de Dezembro de 1935)
Dizia então esse velho historiador desta zona: “Se non é vero, é bene trovato”
🐟O muçum (Synbranchus marmoratus) se adapta facilmente a águas barrentas e sem muito oxigênio. No Brasil, a espécie pode ser encontrada em todas as bacias hidrográficas. O mais curioso é que já existe um rio Mocooca, em Caraguatatuba, litoral paulista, conhecido justamente pela abundância de peixes. Este rio deságua em praia de mesmo nome, e foi responsável pelo assentamento de indígenas no que hoje é conhecido como Terra Indígena Mococa, lá no Paraná. Nosso peixe já foi observado tanto em caraguatatuba quanto no norte paranaense, onde fica a terra indígena.
Seja na terra indígena Mococa, na travessia do rio Mococa, ali perto, na rua Mocóca, em Estácio-RJ, na praia da Mococa, na praia grande ou nesta cidade de Mococa, que fica na bacia do rio pardo, a tendência é a mesma: o termo sempre aparece onde há água envolvida.


Outro local que combina água e Mococa é a região chamada “Mocoóca”, no município Paraense de Maracanã. Lá, o povoado de mesmo nome sobrevive da cultura da pesca.
A vocês peço licença,
(Com Licença, de Manoel da Cruz Evangelista, em Minha Antologia Diferente, Vol. IV)
Doutores e doutoras,
Amigas e amigos,
Para relatar meu sofrimento e aflição,
Quando estive adoentado.
É assim que se fala no sertão:
Povo abençuado,
Vosminceis deve di tá lembrado
Que já fui daqui,
Do sertão do pioir,
E fui apanhado já grandão,
E nunca fui civilizado.
Peguei uma duença da molesta;
Cobra seca dos infernos e disgraçada!
Padici mais qui cabo de guarda chuva
Di viúva qui já foi casada
E pelo marido abandonada.
Foi um tal de labirintite
Este nome aprindi na cidade,
Fiquei bebo sem beber nada,
Bambiava cuma um desengoçado.
E fiquei injuado,
Perdi o apitite,
Quase açucede cumigo,
O que açucedeu cum da Paraíba.
Vosminceis sabe qui na Paraíba
Tem cabra macho cumo diacho
Qui pega muçum no riacho.
Um dilá, chegou no Amapá,
Foi pegar muçum na mocooca,
Pra cumer cum farofa de mandioca
Pegou foi um puraquê,
Qui li deu uma tremedeira,
Chegue gente,
Qui já tou cá cum beribéri da peste.
Doutores, doutoras e amigos,
Agradeço-lhes por permitirem
Falar com meus parentes
De maneira diferente.
- E agora? Qual versão é verdadeira? 🤔
👴🏼Humberto de Queiroz foi um historiador respeitado, tendo sido autor da obra “A Mocóca, de sua fundação até o ano 1900”, reconhecida pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. A história que já faz parte da letra de nosso hino é, portanto, a mais aceita até então. Na expedição, Custódio estaria acompanhado por Diogo Garcia de Figueiredo, um dos fundadores da cidade, o que explicaria a fixação do nome.

🤨Mas há um problema com a história que ficou: Eduardo de Almeida Navarro é especialista em tupi antigo, e aponta que não faz sentido “Mococa” vir da língua indígena. 🔎Isso porque mokó ou mocó é o nome de um roedor. Por isso, “mokó-oka” deveria significar “casa de mocós”. O termo “mokó” é reconhecido por tradutores de tupi antigo como referência ao roedor Kerodon rupestris. Para se referir a algo pequeno, o idioma utiliza mirí, ou mirim, como absorvemos.
O mocó é um animal bastante conhecido no nordeste brasileiro. A “óca” dos mocós são as fendas e rachaduras de formações rochosas. Por isso, a “mokó-oka”, seguindo o tupi, deveria ser uma casa feita nas rochas, aproveitando de suas aberturas naturais.
Teodoro Sampaio, geógrafo e historiador baiano, traz ainda uma terceira versão em seu livro “O Tupi na Geografia Nacional”. Para ele, Mocóca vem de Mô-coga, que significaria fazer roça, roçado, plantação. Navarro chama essa descrição de “completamente equivocada”. No mesmo livro, o próprio Sampaio elenca o vocábulo “Mocó”, significando “bicho que rói, animal roedor”.
🗯🗨💬Outro dialeto que usa o “mokó” é o Xetá. Neste, o vocábulo significa tamanduá. Em Yanomami, Moka significa rã. Em Tupinambá, temos mokón, que significa engolir. O Parakanã utiliza mokó para representar o número dois ou mesmo frases no plural. Em kaingang, língua que já foi falada na região, mokó significa “bolsa”. É justamente o kaingang a língua dos povos que vivem no território indígena Mococa, no Paraná.
Uma salvação para a tese das casinhas é que o termo tenha vindo de alguma outra língua praticada na região. As mais prováveis são o puri, o caiapó. O nome da cidade natal de Custódio José Dias está a salvo: essa sim veio do tupi, como soma de ybytyra (“serra/montanha”) e un (“negro/preto”). Ibituruna, assim, significa “serra negra”.
Olhando para os registros históricos, vemos “Mococa” pela primeira vez em um dicionário de basco para francês de 1826. Lá no país basco, Mococa significaria raciocínio. Mas ao que tudo indica, essa Mococa não guarda com a nossa mais do que mera coincidência.
A dúvida fica. Será que o coronel Custódio de fato quis chamar os moradores das margens do ribeirão do meio de mocós? Será que houve um erro de tradução desde a cidade de Machado? Será que a versão dos peixes é a real origem do nome da cidade?
Esforço colaborativo 🤝🏼
A colaboração de especialistas nas áreas envolvidas nesta reportagem ajudará a história do nome de Mococa ter mais clareza. Abaixo, um formulário para envio de opiniões técnicas de fontes experts:
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