Morre uma etnia

Encontrado ao lado de balas de espingarda, o único sobrevivente da grilagem acaba de morrer. Data histórica, mas abafada pelo etnocentrismo.

Um dos raros registros do “índio do buraco” / Foto: Vincent Carelli

Quarta-Feira, 24 de Agosto de 2022. Uma data histórica, mas que não recebeu da mídia toda a importância que merece. Imagine a extinção do povo chinês, do povo francês, do povo italiano… É esse tipo de tragédia o Brasil viveu nesta data. Morreu uma etnia.

Já chamado de “most isolated man of the world” (homem mais isolado do mundo), o ‘índio do buraco’ era o último de seu povo, e fazia questão de preservar sua cultura. O apelido vem das estruturas feitas para habitação, no estado de Rondônia. Foi encontrado morto pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), órgão que protege (ou pelo menos deveria proteger) as comunidades originárias do Brasil. Dessa vez, a proteção foi insuficiente.

Foi um etnocídio lento e doloroso. Este cidadão brasileiro foi o único que restou após o massacre de seus companheiros de tribo, em 1998. Depois disso, viveu solitário e com medo de qualquer sinal de presença branca nos arredores, medo que infelizmente se justificou na prática. Para manter garantidos seus direitos, a FUNAI tinha que provar constantemente sua existência.

A etnia morreu vítima do crime da grilagem. Era prática comum colocar documentos falsos em uma caixa com grilos, para que se tornassem amarelados e perfurados, gerando aparência de antiguidade. Daí surge o termo que denuncia, hoje, o roubo de terras públicas para uso como se fossem terras particulares. Quase sempre, a grilagem envolve desmatamento e violência. Segundo a WWF Brasil, um crime puxa o outro: se aproximam da grilagem principalmente o narcotráfico e a mineração ilegal.

O tal do Agro

O crime vem em um momento atípico. Sabe-se que o agronegócio, ao contrário do que opina a jornalista Renata Vasconcellos em sabatina com o ex-presidente Lula, não caminha junto com a preservação do meio ambiente, tampouco com a preservação dos povos. De encontro a propagandas como “agro é tech, agro é pop, agro é tudo, tá na globo”, patrocinada por JBS e Ford, e do programa “CNN Conexão Agro”, patrocinado pelo Bradesco, temos os fatos: 97% do desmatamento registrado no ano passado foi causado pelo agronegócio. O próprio ministério da agricultura indica que o setor desmatará um milhão de hectares por ano até 2030 só para criar gado.

O que os inserts patrocinados pela JBS não contam é que a empresa comprou carne de 144 fazendeiros que desmatam ilegalmente, ferindo acordos internacionais. O que o “CNN conexão agro” não informa é que o Bradesco é o segundo maior financiador de empresas envolvidas em desmatamento, segundo dados da ONG Forest & Finance.

Uma cabana de palha chamada de “macolca”, que o índio do buraco construiu e depois abandonou Foto: 2005, Survival International)

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