Por que o jornalista brasileiro adora usar as ‘fontes do pentágono’?

Fenômeno paira entre a cafonice e a pobreza da informação.

Foto: David Mark / Pixabay

“Fontes do pentágono afirmam” é uma expressão já presente no mundo pré-ucrânia, e serve como perfume para o repórter interessado em glamour: quem é que não gostaria de ter contato com alguém de dentro do comando militar mais poderoso do mundo? Nem que seja o contato de uma cozinheira ou de um porteiro, ter ‘fontes no pentágono’ ergue o queixo de qualquer cidadão que desde a faculdade sonhou em ser o dono de verdades nunca antes vistas ou reveladas.

É difícil, no jornalismo local, invocar o poder místico do off sem fortes riscos de um belo processo… o jornalista que utiliza de informações dadas sob condição de não revelação da fonte assume as palavras para si… o tal “fontes informam” soa nos tribunais como “sou eu quem digo”. De maneira alguma seremos obrigados a revelar nossas fontes, quando isso botar em risco nossas sagradas informações.

Fato é que não se pode ignorar, em casos de forte interesse público, uma informação em off… se credível e relevante, que seja publicada. Mas até que ponto estamos dispostos a sacrificar o bom processo de produção da notícia em nome da palavra mágica ‘pentágono’?

O pentágono virou o pentagrama do jornalismo internacional, esse sim liberado do rigor com que se faz uma apuração local, pressionada pelo martelinho do juiz apontado diretamente para o crânio. Na editoria internacional, offismo reina, especular é quase uma regra, e evocar mais tensões durante as guerras por conta de manchetes irresponsáveis engorda as vacas da cobertura lucrativa. Especulação gera mais tensão, que gera mais fato, que gera mais notícia, que vende mais.

A ordem internacional do século XXI dá, aos mais inocentes, a ideia de democratização da produção de informação. Levando a análise às últimas consequências, percebemos que as redes sociais ainda produzem nada mais do que imagens, vídeos e aspas desconexas, desconexão essa que acaba, fatalmente, por entrar no furor de uma redação que deveria cruzar fontes, estados, organizações internacionais, enfim, fazer o jornalismo de um jeito internacional, segundo os padrões de produção de dados da comunidade internacional; faz muito mais sentido, sem dúvida, do que vociferar de maneira acrítica, sem pensar que talvez as tais fontes sejam plantadas pelo próprio Tio Sam, em nome do frenesi vestido com a roupa de furo de reportagem

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